Artista: MERCIC
Media: CD
Ano: 2024
Género: Industrial
Entendo que, primariamente, a música é um meio de comunicação. As notas, as escalas, os andamentos, a forma como se organizam e sequenciam, tudo isto, produz sensações, transmite ideias, provoca estados de espírito, desperta emoções. A música cantada, possui um meio mais directo para fazer tudo isto: a lírica, os poemas. Se facilita por um lado, impõe uma relação de coerência com o instrumental, por outro.
Actualmente, o mercado encontra-se inundado por canções cuja letra se resume a uma série de palavras ou expressões tidas como cool, mas, não querem dizer rigorosamente nada. Por vezes, nem fazem sentido sequer. Outras vezes, elaboram conceitos abstractos pretensiosamente complexos, igualmente vazios de significado, meramente com o intuito de conferir alguma intelectualidade ao objecto artístico, supostamente. Se nos deslocarmos para o mainstream, as letras até podem fazer sentido, mas o sentido que fazem, é para débeis mentais ou decadentes imbecilizados.
Quando "apanho" algo a fazer canções fora desta realidade, canções que de facto querem dizer alguma coisa e coerentes entre a lírica e o instrumental, a minha atenção fica alerta. É o caso deste álbum. O título (XI/eleven/onze), indica ser o décimo primeiro álbum deste projecto (apenas alguns tiveram lançamento em suporte físico, como é o caso deste). Existe um legado volumoso, portanto. Praticam um Idustrial EBM, com guitarras distorcidas e, pontualmente, outros instrumentos á partida estranhos á estética (guitarra portuguesa, tuba), arriscando experimentalismo além do sound design e temas de construção não standard. A dinâmica do álbum estende-se desde o introspectivo/reflexivo, mais calmo, a agressão rápida e furiosa declarada. Uma viagem nada monótona.
Contrariam o velho ditado "Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem", provando que, longe dos grandes centros urbanos e polos de decisão, se fazem coisas, se faz cultura. Provavelmente, também por isso, a sua visibilidade não tem sido a maior. De qualquer modo, o sul da Europa não é propriamente adepto deste género de sonoridades.
O industrial é uma das minhas praias, por esse motivo (e por outros, irrelevantes para esta publicação) sou suspeito ao aconselhar este álbum, mas faço-o de qualquer modo. Talvez o facto de algumas letras aqui contidas falarem directamente a experiências pessoais também por mim vividas, me levem a considerar esta edição uma lufada de ar fresco. Vale a pena escutar.

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