31/01/2025

#Livro

 

Título: I Am Ozzy

Autor: Ozzy Osbourne

Ano: 2010

Idioma: Inglês


Uma vida preenchida. Quando for, vai de barriga cheia. Esta é ideia que fica após ler esta biografia escrita na primeira pessoa. Filho da primeira geração pós segunda guerra mundial, a realidade que enfrentou não foi propriamente fácil ou agradável. Numa Inglaterra a reconstruir-se, as condições de vida da classe trabalhadora eram inclementes. Só já tarde na vida foi identificada a sua dislexia. Por isso, passou as primeiras décadas de vida sem saber ler ou escrever, intitulado de burro e incapaz na escola, condenado a empregos miseráveis e a um ambiente social degradante. O interesse pela música, onde identificou uma possibilidade de fuga à vida que se perfilava, levou-o a juntar-se a outros da mesma geração e formar os Black Sabbath. Então, este pobre analfabeto miserável, abriu a boca e começou a cantar. E toda a gente ficou de queixo caído.

É a sua história, a dos Black Sabbath e a de Ozzy Osbourne a solo. Onde Ozzy estivesse presente, coisas aconteciam. Algumas chocantes, outras hilariantes. Algumas brilhante, algumas trágicas. De miserável faminto a multimilionário, com tudo pelo meio. Os excessos, álcool, drogas, todas drogas, sexo, mais drogas, mais álcool, até á recuperação possível para quem abusou tanto de tudo.

Sem pudores, embaraços ou vergonhas, conta a sua história de vida o melhor que se consegue lembrar. A leitura é bastante cativante pelo seu tom humorístico e, até mesmo nos momentos mais negros Ozzy nunca perdeu o sentido de humor. Quem acompanhou o reality show na MTV e segue online os podcasts, faz uma ideia bastante aproximada do que é o turbilhão de insanidade contrastante com momentos de lucidez profunda surpreendentes. Ozzy é assim, uma viagem na montanha russa. Ou antes, uma viagem num Crazy Train.

O livro vale totalmente a pena. Ozzy é um dos grandes, o seu legado é extenso e carregado de pontos altos. Houve passagens do livro que tive a sensação de o ter á minha frente a contar um ou outro episódio pessoalmente. É este o nível de intimidade que a organização da narrativa consegue conquistar. Está muito bem escrito e é sem dúvida mais um ponto alto na sua carreira. Recomendo.

#Cassete

 

Título: Dying Of Everything

Artista: Obituary

Media: Cassete

Ano: 2023

Género: Death Metal


Habitualmente, os jovens que se sentem atraídos pelo Metal, aderem inicialmente às manifestações mais agressivas do género. Só à medida que os anos vão passando e a personalidade amadurecendo é que admitem interesse por coisas mais suaves, mais melódicas. O meu percurso foi diferente. O inicio do Death e Black Metal, não me cativou. Conheci e ouvi tudo, acompanhei a cronologia do surgimento dos subgéneros a tempo real, mas, as vertentes mais abrasivas repeliam-me. Desde cedo, considerei o som mais importante que a música e, o som dos primeiros álbuns de Thrash, Death, Black, era pura e simplesmente horrível. Como era algo com futuro incerto, as editoras não atiravam dinheiro aos projectos. Limitavam ao máximo as despesas até ver o que aquilo ia dar. Não acreditavam que existisse mercado para algo tão ruidoso. A somar a esta hesitação cautelosa, como era algo inteiramente novo, produtores e técnicos dos estúdios, não sabiam o que fazer e como fazer. Não sabiam como controlar e registar uma fúria sónica tão avassaladora. Só a partir de finais de 80's, princípios de 90's, já com as dúvidas e receios ultrapassados, com experiência adquirida entretanto, começaram a surgir discos destes subgéneros com um som decente. E aí, interessei-me.

Obituary logo desde o primeiro álbum (1989), apresentou uma sonoridade bastante bem conseguida. Não passou um período inicial tortuoso a debater-se com um som frágil, mais abrasivo que impactante. É esmagador desde o início. Souberam controlar o detune dos instrumentos, souberam captar de forma clara as frequências mais graves sem resultar numa massa viscosa e disforme. Os primeiros três álbuns são clássicos obrigatórios para qualquer headbanger que se preze.

Ao longo da carreira mantiveram-se fiéis à fórmula que criaram e, ainda hoje, não difere muito do que faziam há quarenta anos. É bom e é mau em simultâneo. Se por um lado, não desilude, por outro, resume-se a mais do mesmo. Este álbum, o mais recente, é um bom álbum. Mas quando decido escutar Obituary, prefiro pôr a tocar qualquer um dos três primeiros. Ou todos os três primeiros.

Confesso que escutei este disco um par de vezes, confirmei a qualidade, é de facto um bom disco, mas... acabei por o encostar. Há uma série de bandas que sigo religiosamente a carreira. Compro todos os álbuns, bons e menos bons. Mas escutar... Só escuto os espetacularmente bons. O resto, é colecção, porque sou fan e quero ter tudo. Embora não ouça, regularmente, tudo.

Provavelmente tem também a ver com a minha idade. Não é absolutamente necessário andar quarenta anos para trás de modo a obter a minha dose diária recomendada disto ou daquilo, posso perfeitamente obter essa dose com o que existe hoje no mercado. Mas... Se calhar isso obriga-me a enfrentar o reumático. Prefiro recordar o tempo em que não me doía o pescoço, os joelhos, as costas, tinha cabelo, e os dentes quase todos. Saudosismo, é o que é.

Bottom line; è um bom álbum. Mas prefiro os primeiros.

28/01/2025

#CD

 

Título: Heartless Oppressor

Artista: Primal Attack

Media: CD, digipak

Ano: 2017

Género: Thrash / Hardcore


Segundo álbum de mais uma banda portuguesa intermitente. A música é de uma competência irrepreensível e a aceitação foi bastante notável, criando um público fiel logo desde o início do projecto em 2012. Só que... Desde este segundo álbum, passaram oito anos sem mais nada acontecer. Perdoem-me mas, não são aparições esporádicas ao vivo, ainda assim raras, que colmatam o vazio. Recomeçar é sempre mais difícil que dar continuidade a algo que já tenha tomado balanço. Vencer a inércia inicial, onde reside o esforço maior, já estava feito. Era de aproveitar o momentum.

Claro que, os anos passam, a vida muda, surgem outras prioridades. Mas, infelizmente, esta é a história de inúmeras bandas portuguesas com pernas para andar e que cessam a actividade, ou, passam a fazer "aparições" muito especiais, muito exclusivas, de tempos a tempos. Para matar saudades.

Algumas destas histórias, não são bem assim como estou a contar. Por vezes (inúmeras vezes) surgem projectos musicais cheios de sumo, muito válidos, muito competentes, mas, na realidade, o seu propósito resume-se a um showcase. De alguém ou de alguma coisa. Quando cumprida a sua função, cada um segue a sua vida e a banda é descartada. A base de fans entretanto formada, fica desiludida, mas isso é pouco ou nada importante. Até porque, online, tudo continua vivinho e activo. Como se o virtual substituísse o real.

Não devia ser preciso montar um restaurante gourmet meramente para promover o fulano que faz os guardanapos. Mas é o que acontece, com frequência. Isso e músicos com múltiplas bandas de múltiplas sonoridades, quando uma está fora de moda, pega-se noutra que pratique um som mais em voga. Se o festival for de Black, tenho banda para lá ir, se for de Death, tenho banda para lá ir, se for de Stoner, tenho banda para lá ir, se for de Punk... you get the idea.

Provavelmente somos um mercado demasiado pequeno para que sonhos singulares sejam possíveis de realizar, e manter. Deste sonho especifico, os Primal Attack, tenho pena. Gostava de o ver concretizado. Não só porque gosto, mas também porque estava muito bem feitinho. Era produto acabado e de qualidade. Enquanto há vida há esperança.


PS - Não estou a acusar esta banda especifica de ser um showcase ou expediente para "caçar" slots em festivais. Falo genericamente do panorama português. Salpicado por casos que encaixam perfeitamente na descrição.

#Vinil


Título: Rodrigo Y Gabriela

Artista: Rodrigo Y Gabriela

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, gatefold

Ano: 2006

Género: Rock / Latin / Acoustic / Flamenco


Começaram por ser recusados pelo conservatório da cidade do México por falta de talento, formaram uma banda de Heavy Metal, acharam que o formato era demasiado limitado e mudaram para um duo acústico. A tocar uma mistura de Flamenco e Rock, fortemente influenciada pela música latino cubana, foram actuando pelas ruas do mundo inteiro até que um produtor esbarrou neles e, propôs gravar um disco. Recusaram. O produtor insistiu, continuaram a recusar. Então propôs oferecer-lhes tempo de estúdio para fazerem o que bem entendessem, sem qualquer intervenção da sua parte. Saiu o álbum "Re Foc" em 2002. A seguir, uma carreira internacional brilhante, 1,2 milhões de discos vendidos e um Grammy.

Quando estavam em Inglaterra a gravar o álbum "9 Dead Alive" em 2016, resolveram quebrar o tédio do trabalho em estúdio, alugaram um autocarro e percorreram a Europa a dar concertos mais ou menos improvisados. Chegaram a Portugal e tocaram na Aula Magna, concerto que tive o prazer de assistir. Revelaram a escola de artistas de rua onde se formaram, convidando o público, todo o público, a subir para o palco e sentarem-se á volta deles, porque isto de os artistas de um lado e o público do outro, é desconfortável, cria distância, no entender deles, absurda. Quando terminaram o set, bastante curto, pediram desculpa explicando que esta série de concertos não tinha sido planeada, não tinham previsto mais nada para tocar. Por isso, o público podia pedir o que quisesse. Além de mais uns quantos originais, Led Zeppelin, Metallica, Megadeth, são alguns dos temas que me recordo. Foi uma festa intimista, fantástica.

Um homem, uma mulher, duas guitarras acústicas. Rigorosamente mais nada. E enchem as medidas, sem grande esforço. Lindo.

Toda a discografia é digna de ser escutada. Sete álbuns de originais, três álbuns ao vivo e três EP's. Grabiela Quintero, usa a guitarra acústica também como instrumento de percussão, de forma soberba, Rodrigo Sanchez, em discos mais recentes, adicionou a guitarra eléctrica ao leque. Eu comecei neste álbum, quem for mais obsessivo compulsivo, comece no primeiro. Garantidamente não vai parar enquanto não os ouvir todos.

25/01/2025

#Livro

 

Título: Breve História do Metal Português

Autor: Dico

Ano: 2016

Idioma: Português


Este é o segundo livro sobre a história do Heavy Metal em Portugal, de Dico (Eduardo Almeida). O primeiro (2013), cessava a cronologia em 1999, este, contém o anterior e, acrescenta cerca de década e meia de história. Não é bem a mesma coisa que o anterior revisado, mas é quase. O título é o mesmo mas, as capas são diferentes, esperançosamente, não deve dar azo a confusão.

Para ter lugar uma apreciação justa desta obra, é obrigatório referir que, o Heavy Metal em Portugal se construiu desenvolveu e progrediu quase em exclusivo no underground. Ou seja, salvo poucas excepções, as bandas que tiveram um papel seminal, desbravaram caminho, iniciaram o movimento e aglutinaram pessoas, não lançaram discos, não tiveram contratos com editoras, não estiveram representadas em catálogo de promotoras. Reportando a uma era sem internet, sem telemóveis e, à distância de várias décadas, facilmente estas bandas se tornam invisíveis. O trabalho de pesquisa de Dico é, portanto, da mais elevada importância e valor.

Só mesmo alguém que tenha participado activamente no underground nacional, a tocar em bandas, a produzir programas de autor em rádios locais (piratas), a produzir fanzines, a organizar concertos e, tenha estado envolvido no tape trading (a internet da altura), é que seria capaz de conseguir um feito destes. Este livro, é na essência, um inside job.

Claro que existem lacunas, nomes em falta. Muito do tal underground também se passava na província e, por muito valor que tivesse, acabou por cair vítima do anonimato, longe dos centros urbanos onde a acção principal se desenrolava.

Este livro não é meramente uma lista de bandas, discos (cassetes, demo tapes) e datas. Segue um enquadramento cronológico, contextualização socio geográfica, atribuições estéticas, testemunhos na primeira pessoa, de vários elementos envolvidos neste processo colectivo que, eventualmente acabou por parir uns Moonspell, a banda nacional deste género musical a ter maior alcance internacional (por enquanto). Existiram "activistas culturais" que puseram o cargo que detinham, ao serviço da divulgação (também) do Metal nacional. António Sérgio, Júlio Isidro, respectivamente em rádio e televisão com abrangência nacional, fizeram pela cultura, mais que muitos ministros da mesma. Criar a massa critica de consumidores necessária ao brotar de um movimento estético vivo, auto suficiente que, em ultima análise, ainda hoje respira saúde, deve-se mesmo a muita gente. E, egos à parte, muito amor à camisola. Isso é espelhado nesta obra literária.

Com este livro, Dico, arrisca-se a que o seu nome fique também perpetuamente gravado no "activismo cultural". Com todos os defeitos e qualidades, um must have.

24/01/2025

#Cassete

 

Título: At War With Reality

Artista: At The Gates

Media: Cassete

Ano: 2022

Género: Death Metal


Precursores do som de Gothenburg, o Death Metal melódico, a banda cessou actividade em 1996 voltando a reunir-se em 2011. Este álbum foi o primeiro a ser lançado após a reunião. Originalmente editado em 2014 beneficiou de reedição em 2022.

Gosto bastante do intitulado "som de Gothenburg". A inclusão de melodias cativantes e agradáveis em composições de resto abrasivas, cria um efeito emocional surpreendente. Enquanto no resto do mundo o Rock evoluiu passando por um processo sequencial que no seu caminho foi gerando subgéneros, na Suécia e Noruega, o Heavy Metal explodiu imediatamente nas vertentes mais extremas. Bandas de Hard Rock, Glam, Shock, Power e Heavy Metal clássico que, noutras geografias pavimentaram o caminho às manifestações mais extremas posteriores, ali, popularam a oferta nacional depois de projectos de Death e Black Metal estarem já perfeitamente solidificados.

Provavelmente por esse motivo, o Death e Black nórdico continuou a evoluir na dianteira do Death e Black de outros países, passando a ser ele a inovar, influenciar, com papel seminal na criação de novos subgéneros. Daí a expressão "som de Gothenburg". É único e nasceu ali. Tudo o que veio depois, foi beber àquela fonte.

Derivado a ser um álbum de retoma de actividade, as expectativas eram altas. Estiveram à altura da responsabilidade e não desiludiram. O disco é muito bom. Rapidamente foi elevado ao estatuto de clássico do catálogo e, da estética onde se insere. É um álbum ao qual se retorna com frequência, porque, parecendo que não, já passaram dez anos desde que saiu. Yup, o tempo passa rápido.

Embora com algumas mudanças de line-up e por vezes recorrendo a músicos de sessão, a qualidade da música produzida tem-se mantido razoavelmente homogénea, num patamar alto. No entanto, At War With Reality, tem a capacidade de motivar o ouvinte a explorar o resto do catálogo. Justifico assim a escolha para esta publicação.

22/01/2025

#CD

 

Título: Zero Order

Artista: Re:Aktor

Media: CD

Ano: 2003

Género: Industrial / Cyber Metal


Projecto nacional de Industrial com as canções certas, o som certo, o timing certo e... infelizmente deu em nada. Mantém-se incompreensivelmente registado como activo, uma vez que além deste álbum de 2003, mais nada mexeu desde então.

Na altura, fiquei bastante entusiasmado e previ um futuro risonho para Re:Aktor. Errei. Por pertencer a um género de música da minha preferência, talvez os meus sentidos tivessem ficado alienados da realidade. Mais uma daquelas bandas que podiam ter sido, mas não foram. Verdadeiramente lamentável.

A recepção geral ao disco foi anémica. O público português não abraçou a mistura de electrónica com Metal (ainda hoje permanece avesso) e no panorama internacional a concorrência era feroz e a oferta muita. Este único álbum é hoje quase desconhecido. Fica como registo de algo que quase aconteceu.

Não se tratou de um projecto com um percurso típico, a passar pela fase de demos, concertos em circuitos locais ou selecionados, promoção e construção de uma base de fans. Apareceu já cristalizado repentinamente com este disco. Conjecturo se terá sido uma estratégia errada a condenar ao fracasso. Por outro lado, os elementos da banda faziam parte de outros projectos e Re:Aktor aparentava ser algo paralelo, secundário. A aposta e investimento, provavelmente, não foram prioritários.

Seja como for, gosto muito do conteúdo e lamento não ter vingado. Como estamos na era do 2.0 vá-se lá saber se não ressuscitam. Era fixe.

#Vinil

 

Título: Live In Berlin

Artista: Headcat

Media: Vinil red, 2xLP, 12", 33rpm, gatefold

Ano: 2023

Género: Rock and Roll / Rockabilly


Habitualmente os supergrupos (bandas formadas por elementos de outras bandas) são uma desilusão. Neste caso, como a estética e propósito eram bem definidos logo á partida, acho que resultou. Formado inicialmente por Lemmy (Motorhead) na voz e baixo, Slim Jim (Stray Cats) na bateria, Danny Harvey (Rockats) na guitarra, após o falecimento de Lemmy, David Vincent dos Morbid Angel assumiu as despesas da voz e baixo no seu lugar.

Este disco, gravado ao vivo em Berlim em 2011 e lançado doze anos depois, tornou-se uma relíquia imperdível. Claro que o falecimento de Lemmy em 2015 contribui para o seu valor coleccionável e relevância histórica, mas, também a singularidade do projecto musical em si é notável. Rockabilly, ou Rock and Roll dos anos 50, cantado numa voz rouca e áspera, é algo de assinalável. Nunca pensei que soasse tão bem.

A gravação não está propriamente perfeita e imaculada mas é assim que o Rock and Roll deve soar. Imperfeito e sujo. Conta vinte e uma canções, entre as quais se podem encontrar clássicos icónicos como por exemplo "Suzi Q" ou "Blue Suede Shoes". Saltei de contentamento por ter conseguido assegurar um exemplar para a colecção.

Penso ser um disco (e uma banda) que ultrapassa largamente a classificação de "curiosidade". Lemmy foi um roqueiro de corpo e alma, veremos como se sai David Vincent no seu lugar. A responsabilidade é elevada. Aguardo novidades com alguma expectativa.

21/01/2025

#Livro


Título: A History Of Heavy Metal

Autor: Andrew O'Neill

Ano: 2017

Idioma: Inglês


Andrew O'Neill é comediante. Este livro, o primeiro que escreve, é largamente inspirado no seu espetáculo de stand up comedy. Fan de Heavy Metal, faz um périplo bem humorado pela história do género, figuras icónicas, bandas, discos e, episódios conhecidos. Tudo isto filtrado pelos seus gostos e preferências pessoais, o que contribui para o tom de humor. Determinadas bandas e subgéneros ficam assumidamente fora da história, porque não gosta deles, ponto.

Todo o fan de Heavy Metal sabe, pelo menos genericamente, a história deste estilo de música. Especialmente depois dos populares filmes documentários de Sam Dunn, todo o headbanger faz pelo menos uma ideia da sequencia de eventos e os nomes envolvidos. Sem as credenciais académicas e assumidamente sem investigação sistematizada, antropológica, histórica, ou outra, o livro leva-nos numa viagem razoavelmente fidedigna, mesmo considerando os predicados atrás referidos, pela cronologia do Heavy Metal.

É um livro divertido e bem disposto, de leitura fácil para todos. Claro que, só quem estiver previamente por dentro do tema, poderá interpretar correctamente diversos punch lines. Tem mais piada para os fans, mas não deixa de ser um bom livro para quem vê/lê de fora. A validade científica é nula, o humor é parcialmente exclusivo a um determinado grupo social mas, não deixa de ter interesse para os demais. Especialmente a quem se interesse por humor e stand up comedy. Por não se tratar de uma transcrição literal do espetáculo ao vivo, mas sim de uma adaptação literária inspirada em, crio algumas expectativas acerca do futuro de Andrew como autor/escritor. Para uma primeira tentativa, não se saiu nada mal.

20/01/2025

#Cassete

 

Título: Insidiously

Artista: RAMP

Media: Cassete

Ano: 2022

Género: Thrash Metal


Os RAMP são um dos maiores e melhores expoentes do Metal nacional. Contam com seis álbuns de originais e mais tudo aquilo que uma banda com 37 anos de existência tem direito: live, unplugged, best of. Passaram por várias fases, aliás, em todo o catálogo não se pode acusar os RAMP de auto plágio, todos os discos possuem identidade própria. Houve uma altura, talvez motivados por uma tentativa de voos mais ambiciosos, amaciaram um bocadinho a sonoridade, tornando-a mais acessível, sem no entanto perder o que faz dos RAMP os RAMP. Sempre pus em causa a prateleira Thrash onde os arrumam. Considero a música que fazem bem mais transversal, para além dos limites dessa estética. Vale o que vale.

Este é o mais recente álbum de originais. Nele, assumiram a responsabilidade acrescida da produção, gravação, mistura e masterização. Fizeram um bom trabalho, diga-se. Sei que a editora que lançou este disco, assumiu o compromisso de o fazer sem ter previamente ouvido sequer. Ilustra bem as credenciais de que gozam. A ética de trabalho é sem dúvida elevada.

Talvez por estarem numa fase de maturidade onde já não têm que provar nada a ninguém, com uma base de fans bem sólida e, desta vez, controlo total sobre todos os aspectos do álbum, pariram uma pérola. De todo o catálogo, este passou a ser o meu preferido. Bruto, bem trabalhado musicalmente e, com a desvantagem de estarem a "treinar" um baterista novo (ficam assim actualmente, com apenas dois membros originais), cozinharam algo de assinalável. Uma vez que acompanho a carreira da banda desde cedo e, fazem parte das minhas preferências, sou suspeito por elogiar de forma tão declarada. Mas que está mesmo muito bom, está.

Aconselho vivamente a escuta. Existe nos formatos todos (CD, vinil, cassete), escolhi a cassete meramente pelo contexto deste blog. A edição nos vários formatos, penso não ser tanto pela tentativa de assalto aos colecionadores mas mais por uma adaptação ás tendencias de mercado. Seja como for, um álbum novo de RAMP é sempre de celebrar.

18/01/2025

#CD

 

Título: Diesel Dog Sound

Artista: The Temple

Media: CD, digipack, DVD

Ano: 2004

Género: Nu Metal / Groove Metal / Heavy Metal / Hardcore


Lembro-me deles aí por 1994 ou 1995, algures no Porto, não me recordo dos detalhes, nem consigo contextualizar melhor, mas estive lá. Banda nacional com um inicio de carreira bastante promissor e com uma sonoridade definitivamente enterrada no Rock pesado mas sem compromisso com nenhum dos géneros ou sub géneros. Têm em seu nome três álbuns e dois EP's. Este é o penúltimo álbum. Digo "promissor" porque, de facto, houve um certo buzz á volta dos The Temple em finais de 90's e inícios de 00's. Despertaram o interesse de editoras, foram gravar a Inglaterra (este álbum), trabalharam com o produtor Tue Madsen (álbum seguinte (2015) e último até á data), fizeram as primeiras partes de Machine Head, Entombed, Kreator, fizeram o circuito dos festivais nacionais. Mas na realidade, os anos passaram, aconteceram mudanças de line-up e, desapareceram na obscuridade.

Fiquei algo surpreso por os apanhar ao vivo em Lisboa em 2024, a tocar para meia sala. Pensava que o projecto estava em pausa, ou pior. Ao vivo, são excelentes, embora pareça que estão a tocar para si mesmos e o público um mero voyeur de algo íntimo e privado.

Musicalmente competentes e donos de um punhado de canções dignas de grandes voos, praticam o tal Rock pesado sem vínculo a uma estética específica. Embora tenham criado algo singular, esta independência provavelmente não jogou bem bem a favor. A fidelização do consumidor não resultou, pelo menos em pleno. O preço a pagar por não se colarem a standards.

Como as minhas preferências não dependem de eventuais sucessos comerciais, gosto bastante da música que fazem e, caso se proporcione irei ver ao vivo todas as vezes que conseguir. Em disco, valem mais pela musicalidade que pela gravação/mistura/masterização. Respeito o trabalho feito mas, não considero admirável. Falha em reflectir a cumplicidade e entrosamento que se testemunha ao vivo. Não me interpretem mal, é bom, muito bom. Se calhar, se nunca tivesse visto ao vivo, achava a versão gravada o melhor do mundo.

Este álbum e o seguinte (Serpentiger) deviam estar na prateleira de todo o headbanger português. Não só por motivos históricos ou colecionismo mas, porque me irritam alguns comentários ignorantes acerca do que é "inovador" e "pedrada no charco" no panorama musical nacional.

17/01/2025

#Vinil

 

Título: Immortal

Artista: Lorna Shore

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, sleeve jacket

Ano: 2020

Género: Death Core


Cheguei a Lorna Shore por ter lido críticas contraditórias acerca da banda, o que despertou a curiosidade. Ouvindo, percebi imediatamente as positivas. Indagando a história, percebi as negativas. Musicalmente, não há aqui nada que me desagrade, aliás, enche-me as medidas. Tem profundidade, velocidade, agressão, melodia, penso que qualquer headbanger que se preze, reage positivamente ao ouvir. Todavia, a tribo do Metal detesta produtos pré fabricados, prefere coisas genuínas. Basta ver o que aconteceu a todo o Hair Metal e Nu Metal, varridos para debaixo do tapete, longe da vista. No limite, são um guilty pleasure bem escondido.

A carreira de Lorna Shore, iniciada em 2009, conta com quatro EP's e quatro álbuns. Não é propriamente longa. Para um tempo de vida tão curto, presentemente, não há nenhum membro original no line-up. Isto levanta suspeitas á malta mais purista. Á distância, pode parecer uma banda fabricada por uma editora ou produtor. O patrão vai contratando e despedindo conforme conveniência. Daí serem olhados com alguma desconfiança. As orquestrações e arranjos clássicos que polvilham a música, ao vivo em backtrack, só contribuem para a suspeição do purista. Por último, alguém decidiu arrumá-los numa prateleira que contém a palavra "core" na designação. Com a excepção do Hardcore, todos os outros "cores" geram desconfiança.

Contas feitas, é mesmo muito bom. Independentemente dos motivos que tenham causado a mudança completa do line-up, da prateleira onde os arrumaram, das orquestrações entrelaçadas nas canções, é música excelente. Este álbum (o penúltimo) goza de um som imaculado em termos de mistura e masterização, com tudo muito bem definido e encaixado na perfeição. Dentro da capa vem também a versão em CD. Quando chegou, tocou repetidamente e não fartou. Muito bom.

16/01/2025

#Livro

 

Título: I Am Morbid

Autor: David Vincent / Joel McIver

Ano: 2020

Idioma: Inglês


A vida de David Vincent contada na primeira pessoa. Mais focado no músico/artista que na sua vida pessoal, embarca-se numa viagem onde é descrita a história dos Morbid Angel com alguns dos poemas/letras pelo meio. A elevada ética de trabalho, o foco primordial nos objectivos e, alguma retórica ideológica, por vezes contradizente. Um frontman, será sempre um alfa e isso torna-se obvio nas páginas deste livro.

Não é propriamente a história habitual do rockstar way of life, inundado por abusos e excessos de todos os tipos. Se há algo que sobressai, é mesmo a ética de trabalho, o investimento e esforço que, produziram uma das primeiras bandas de Heavy Metal extremo. Só os presenciei uma vez ao vivo e, nunca vi uma banda a tocar com tanta precisão, com tanto sincronismo. Perfeitos a uma velocidade alucinante. Um nível destes só se atinge com muito trabalho de repetição, ensaio, treino. Quem se indulta em álcool e drogas, não fica capaz, nem mental nem fisicamente, de atingir patamares de excelência performativa como os Morbid Angel atingiram.

Claro que contém algumas peripécias caricatas pelo meio e, chega ao seu término com Vltimas e Headcat, os projectos musicais mais recentes onde Vincent participa. Talvez uma biografia devesse ser escrita mais tarde na vida, suspeito que David Vincent ainda tenha pela frente muita coisa para dar em termos artísticos, a história não vai terminar aqui, certamente.

A leitura é fácil e flui de forma muito confortável. Fica-se a conhecer um pouco da pessoa por detrás da voz cavernosa e áspera, fica-se a saber como aconteceram os primeiros sons do Death Metal no planeta terra. Bom livro.

#Cassete


Título: Live in North America

Artista: Suffocation

Media: Cassete

Ano: 2021

Género: Death Metal


Formados em finais dos 80's, contam com oito álbuns de originais (o primeiro é de 1991) mais uns EP's e dois álbuns ao vivo. Este live, torna-se particularmente interessante para o histórico da banda, pois é o último registo com o vocalista original Frank Mullen. De notar que, ao vivo, além de Mullen, já passaram por lá mais quatro vocalistas.

Neste álbum destacam-se duas ou três coisas. A mais notória é a qualidade da gravação, francamente boa. A interacção/diálogo com o público não foi excluído da gravação. Apesar de fora do palco serem pessoas acessíveis e afáveis, quando estão a tocar é pouco habitual endereçarem a audiência. É um álbum longo, com treze temas e, provavelmente devido à despedida do vocalista, a setlist funciona muito bem como um best of.

Reúnem-se portanto, uma série de predicados que justificam plenamente a aquisição. A etiqueta Death Metal, fica-lhes bem e é justa. No entanto, Extreme Metal ou até mesmo Technical Death Metal, são frutos que não caem muito longe desta árvore. Não só por pertencerem aos primórdios desta estética, a afinidade que tenho por eles deve-se ao facto de permanecerem com uma sonoridade maioritariamente orgânica. Derivado á velocidade e precisão necessários para executar este género de música, a tendencia é resultar numa sonoridade sintética, artificial. Percebe-se que bombos e tarola, acima das cento e oitenta batidas por minuto, acusticamente têm tendencia para embrulhar e consequentemente perder definição, com triggers resolve-se e, é muito mais prático também para as actuações ao vivo. No entanto, Suffocation permanece com uma sonoridade geral, bastante orgânica e isso agrada-me. Ao vivo, só uns olhares e sorrisos trocados entre os músicos, denunciam pequenos desvios milimétricos pontuais, imperceptíveis para o público. Mas é precisamente isto que é ser humano. Só máquinas não têm flutuações ocasionais.

Também aprecio a precisão fria e impessoal da maquinaria, mas, cada macaco no seu galho.

É um álbum passível de ilustrar uma carreira de mais de trinta anos, bem gravado e bem tocado. Vale a pena.

14/01/2025

#CD

 

Título: Instinct

Artista: Phantom Vision

Media: CD

Ano: 2005

Género: Goth Rock / Electro Goth / Dark Wave


Com um pouco mais de vinte anos de carreira, daí ter escolhido este álbum de 2005 e não outro mais recente, são provavelmente a banda que melhor ilustra a expressão "segredo bem guardado", cuja aplicabilidade estupidamente prospera para a música feita em Portugal.

Na presente data, o evento que trouxe aos Phantom Vision uma visibilidade mais abrangente, foi terem sido expressamente convidados por Till Lindeman (Rammstein) para fazer as primeiras partes da mais recente tour do seu projecto a solo, Lindeman. Que não passa por Portugal. E foi assim que a generalidade dos portugueses tomou conhecimento da existência desta banda. Por serem conhecidos e reconhecidos por uma megaestrela estrangeira e, por esse motivo, irem passar uma temporada ausentes de Portugal. É esta pequenez que se esconde por detrás dos "segredos bem guardados". Irra.

Praticam um Rock Gótico com corpo electrónico, numa sonoridade bastante acessível, rítmica e melodicamente cativante e, têm mantido uma coerência estética ao longo da carreira que, não deve ser confundida com monotonia. Alguns temas seriam facilmente remisturados para versões dançáveis (beat based), provavelmente até já foram, só que eu não sei. Contam com sete álbuns em vinte e cinco anos de actividade, sendo que, as aparições em palco em nome próprio são algo intermitentes mas, marcaram presença a fazer as primeiras partes de tudo o que interessa, nesta estética, que tenha vindo a Portugal. O currículo é extenso e invejável.

O facto de se movimentarem num género musical com regras algo rígidas, pode levar o ouvinte a fazer comparações e a traçar paralelos. No entanto, a construção e estrutura de algumas/várias canções, contradizem essa lógica. Não são propriamente "fora da caixa" mas também não se podem "meter no mesmo saco" com tudo o resto. Conquistaram a sua singularidade, inseridos num determinado ecosistema.

Vale totalmente a pena explorar os sete discos (CD's), certamente irá motivar a aquisição de alguns títulos e, caso a oportunidade se apresente, ver ao vivo é imperdível. Segredos destes, não é para guardar, perceberam?

13/01/2025

#Vinil

 

Título: Inferno

Artista: Congruity

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, EP, sleeve jacket

Ano: 2024

Género: Death Metal / Black Metal


Resiliência é uma das palavras que vêm à mente quando se fala nos Congruity. Trio de Abrantes com vinte e cinco anos de actividade, sempre nesta estética Death/Black. Fora dos grandes centros urbanos, fazer música original é digno de nota por si só. Enfrentam-se todas as dificuldades que os outros enfrentam, mais as inerentes à província: as mentalidades do interior esquecido e ostracizado (plagiando o Herman), a logística implícita para as saídas e, a concretização de eventos auto produzidos localmente. Há que tirar o chapéu a quem o faz sem se cansar, durante vinte e cinco anos. Editar um disco, em vinil, é de levantar a sobrancelha.

Esta é a primeira vez que editam em vinil. EP produzido pela própria banda, gravado com os seus próprios meios. Seis temas, um deles instrumental. A visceralidade assalta os sentidos e a crueza castiga o ouvinte, marcando pontos a favor da genuinidade. Ao vivo, seria expectável uma postura de agressividade misógina condizente, mas não. É um misto de enérgico e rude, com simpatia e boa disposição. Afinal, se não fosse por pura diversão, o que estaríamos ali todos a fazer? Tanto o disco como as actuações ao vivo, valem a pena, é boa onda.

Num mundo escravizado pelo virtual, esta é uma edição obrigatória de assinalar. Que sirva de alerta aos colecionadores mas, acima de tudo, que se traduza numa verdadeira conexão com a banda e aquilo que se faz de forma totalmente independente no interior do país, onde, até tocando de borla, é difícil arranjar locais para o fazer. Ser underground não tem o mesmo significado em todo o lado.

Com o objectivo de manter a independência, este blog nunca refere a editora em cada publicação. Os discos, livros, CD's e cassetes aqui divulgados, não são oferta promocional, são comprados no mercado. Neste caso, abro uma excepção para a Bonesaw, editora deste EP, pelos mesmos motivos que enunciei acerca dos obstáculos do interior esquecido e ostracizado. Well done, Bonesaw.

12/01/2025

#Livro

 

Título: Bizarra Locomotiva: Livro Negro

Autor: Pedro Almeida

Ano: 2017

Idioma: Português


O fotógrafo Pedro Almeida acompanhou durante cinco anos os Bizarra Locomotiva, período durante o qual promoveram o álbum "Álbum Negro". Este livro reúne uma selecção de fotos resultantes dessa tour. Vários textos, de diversos autores de diversas áreas (de jornalistas a músicos), vão pontuando as páginas do livro, caracterizando a banda, o álbum, a tour, enunciando a sua própria interpretação do projecto musical Bizarra Locomotiva.

Trata-se de um photo book principalmente baseado em photo art, contrariando o modelo photo report que à partida seria o expectável, mediante a contextualização. Ou seja, Bizarra Locomotiva são apenas o argumento, ou desculpa, para o autor exercitar criativamente a arte da fotografia. É excelente e peca apenas pelo formato. Penso que teria tudo a ganhar numa edição em formato maior.

Não interessa apenas aos seguidores da banda. Fotógrafos e amantes da fotografia, encontram nas páginas deste livro verdadeiros pedaços de arte. Considerando que em concertos ao vivo, a luz é por excelência dotada de uma dinâmica enorme e, mesmo em espetáculos idênticos e consecutivos a realidade varia de sala para sala, adicione-se as acrobacias necessárias para acompanhar os verdadeiros animais de palco que são os Bizarra, é de facto um trabalho de valor.

Resta referir que exibe fotos tanto a preto e branco como a cores. O livro pode ter lugar como item de colecção para os fans, mas também pode ser uma excelente adição á biblioteca.

11/01/2025

#Cassete


Título: Never Surrender

Artista: Destroyer 666

Media: Cassete

Ano: 2022

Género: Extreme Metal


Neo-nazis, islamofóbicos, homofóbicos, machistas, a lista continua. No mínimo, politicamente incorrectos. Curiosamente, nenhuma destas etiquetas pode ser justificada pelas letras das canções. Surgiram devido a comentários jocosos emitidos pelos membros da banda em diversas situações. Comentários esses que, há trinta anos atrás, seriam interpretados como humor de gosto questionável, nada mais que isso. Mas o mundo mudou e, é imperioso não ofender ninguém, muito menos minorias. Pode-se invadir, bombardear, matar, exterminar, torturar, explorar, escravizar. Mas ofender... Nunca.

É Rock N' Roll e devemos colocar as coisas em perspectiva. Se actuais ídolos do mainstream, glorificam a libertinagem sem consequência alguma, que resta para os meninos mal comportados do Rock N' Roll? Tricotar cachecóis e gorros com pompom? Mesmo discordando de eventuais posições ideológicas (que nunca manifestaram de forma declarada), acho muito bem que ofendam a torto e a direito. De qualquer modo, na realidade, o que significa ser nacionalista australiano? Koala uber alles? Heil Kangaroo? Risível.

A música, gosto bastante. Ocupa um slot sem grande concorrência, Rock N' Roll rápido e furioso, sem se comprometer com nenhuma estética ou género especifico. Não é Thrash, não é Death, não é Black. Os especialistas colocam-nos na gaveta do Extreme Metal (com razão, é de facto extremo) sem grandes adjectivos, porque não sabem muito bem o que fazer com eles. Estão mais próximos dos Exploited ou GBH do que dos Napalm Death. Sou de opinião que este género de abordagem ao Rock N' Roll faz falta e existe espaço suficiente para albergar mais bandas do género. Isso, ou, ressuscitar o Lemmy. Porque Motorhead faz muita falta. Porque Headcat, mesmo com David Vincent, não é a mesma coisa.

Serve para abanar o capacete e ficar com uns refrões orelhudos a rodar teimosamente na cabeça enquanto se bate o pézinho em ritmo acelerado. Cumpre a função de catarse para a agressividade latente. Serviço público, portanto. Gosto e estou-me borrifando para o resto.

10/01/2025

#CD

 

Título: Hubris

Artista: The Godiva

Media: CD

Ano: 2023

Género: Melodic Death Metal / Symphonic Metal


Alguns (muitos) dos discos que vou adquirindo são consequência de algum concerto ou festival onde vi a banda actuar e fiquei de algum modo agradado ou até, impressionado. No caso dos Godiva, tive a oportunidade de ver um concerto num formato até á data único. As orquestrações presentes na música, ao invés de pista previamente gravada, como é habitual nestes casos, foram tocadas ao vivo. Uma banda portuguesa em inicio de carreira teve a ousadia de se apresentar em palco com uma orquestra. Fiquei impressionado. Gostei da música e, mais tarde, fui ao concerto de apresentação do álbum (único disco da banda até à presente data), então em formato "normal", apenas a banda em palco e, as orquestrações, a tocar em backing track. Obviamente, o impacto visual foi menor, no entanto a performance e a música, excelentes.

Fiquei convencido em seguir a carreira da banda, não só por a música que fazem me agradar, mas também por ter testemunhado uma vontade enorme em investir e correr riscos. Esta atitude á necessária. Existem vários talentos que fazem boa música, produzem bons álbuns, mas... Ficam pelo formato virtual. A sua existência resume-se á Internet. A música que fazem, nem ao suporte físico chega. Pois bem, gosto de música ao vivo, gosto de olhar os performantes nos olhos, gosto de validar se efectivamente estão a viver aquilo, se são genuínos. E, caso me convençam, gosto de possuir o disco.

A etiqueta Melodic Death Metal, é algo ingrata. Fica no meio. Quem gosta de Death Metal, suspeita que a violência possa ser insuficiente. Quem prefere coisas melódicas, suspeita que a violência possa ser excessiva. Infelizmente, existe muita malta que se pauta por um rigor intransigente naquilo que ouve. Essa malta perde muita música boa, de ambos os lados.

É isso que eu considero este disco: Música boa. Outras considerações só poderão ter lugar com o evoluir do projecto. Por enquanto, é só um álbum. É bom e vale a pena escutar. Fico atento e expectante pelo seguinte.

#Vinil

 

Título: Ragnarok

Artista: Myrkur

Media: Vinil blue sea, 12", 45rpm, sleeve jacket

Ano: 2024

Género: Folk / Ambient / Black Metal


Este disco pode ser considerado um one off na carreira de Myrkur. Trata-se de uma banda sonora original encomendada para uma peça de teatro com o mesmo nome (Ragnarok) que foi a palco no Royal Danish Theatre. Considerando o tema, folclore nórdico, a escolha desta banda parece-me adequada. Felizmente, acabou por ser editado em disco, sob a designação Myrkur e não isoladamente. É bem vindo e não destoa no catálogo.

Não se afasta do resto da estética e estilo do resto da discografia, aliás, inclui mais Metal que alguns álbuns anteriores, o que é sempre agradável. A voz melódica domina, como é tradição e, derivado ao objectivo, existem partes instrumentais mais extensas. No entanto, no total, o disco é muito curto, nove temas que passam num ápice. Musicalmente, não apresenta nada que desagrade a quem gosta do género e segue a banda, acabando por se tornar num título perfeitamente coerente com o resto da família.

Calculo que, quando se esgotar esta prensagem, se torne objecto de colecção. Derivado á sua singularidade (falo sem saber os detalhes do contrato, direitos de edição, copyrights e afins), duvido que vão a correr fazer mais. Não é propriamente Pop Mainstream que venda milhões de cópias. Arranjar este exemplar já foi algo tortuoso.

Esta do Pop Mainstream veio relembrar-me da ideia que Myrkur, com o financiamento certo, teria potencial para destronar em vendas e popularidade muito lixo pré digerido que anda por aí. Se ficar pelo Folk, Pagan Metal, Black Metal, para minorias, por mim, tudo bem. Mas que tem potencial para vender á bruta, tem.

Não aconselho a ouvir especificamente este álbum, aconselho ouvir todos.

08/01/2025

#Livro

 

Título: O Universo da Sanfona

Autor: Ruben Monteiro

Ano: 2024

Idioma: Português


Um trabalho admirável de contextualização histórica e social acerca de um instrumento musical que se recusa em calar. Na primeira parte deste livro é abordada a história da sanfona no detalhe possível, mediante os registos históricos existentes do instrumento, as suas variantes e evolução ao longo dos séculos, inclusive o estudo etimológico da palavra. Na segunda parte, o autor, músico dedicado a este (e outros) instrumento, conta a história da sua relação com a sanfona, o despertar do interesse, descobrir os seus segredos e, a vontade de a trazer para o século XXI, devidamente equipada para o embate.

Ruben Monteiro focou a sua atenção criativa na música étnica e secular. Ressuscita-a nos projectos musicais onde participa mas, com o amor pela sanfona totalmente cristalizado, encetou a aventura de propor a luthiers especializados a introdução de algumas alterações ao instrumento. Com isso, abriu as portas á utilização da sanfona em contextos sonoros e musicais modernos. O Rock é um deles.

O livro descreve esta aventura em linguagem acessível ao leigo e, paralelamente também conta um pouco da biografia do autor. Numa terceira parte, são reunidas uma série de referências passíveis de orientar os interessados no consumo de música étnica / world music, o mapa da mina digamos, onde a sanfona é protagonista.

É um livro de valor, muito aprazível de ler. Acima de tudo é um registo útil para referência futura. Este instrumento foi adaptado com sucesso ao mundo moderno e, quem o fez, teve o discernimento de registar em palavras o percurso realizado. Musicalmente, aguardo com expectativa a exploração das possibilidades que foram abertas. Para já, fiquei fascinado com o concerto de apresentação.

Excelente. Leiam, ouçam e, julguem por vós.

07/01/2025

#Cassete


Título: Lotus

Artista: Within Destruction

Media: Cassete

Ano: 2022

Género: Metalcore / Deathcore / Industrial Metal


Quinto álbum desta banda oriunda da Eslovénia. Uma pesquisa breve classifica-os como Metalcore, Deathcore, Nu-Metal, em diferentes fases da carreira. Estranhamente nunca se fala em Industrial. Curioso porque, usam e abusam de samplers e synths e, alguns temas entrelaçam beats repetitivamente mecânicos. A atribuição da Eslovénia como país de origem também é dúbia. Talvez "banda internacional com base na Eslovénia" fosse mais adequado, já que um dos elementos é japonês.

Achei a sonoridade demasiado densa e as canções demasiado díspares. Não interpreto como um álbum, mas sim como um disco onde se reuniram uma série de canções. Se uma sequência de cinco álbuns não criou as condições para que a banda cristalizasse a sua sonoridade definitiva, talvez fosse melhor parar para pensar, assentar arraiais, decidir e, arrancar de novo. Deduzo que esta indefinição seja consequência das possibilidades que as novas tecnologias trouxeram ao mundo da produção musical. Um grupo de músicos fechados numa sala de ensaios, cara a cara, ficam próximos do alvo á primeira tentativa, acertam em cheio á segunda com a ajuda de um produtor. E a partir daí, é fogo á peça.

Agrada-me algum experimentalismo aqui incluído, embora suspeite que seja mais um indicio de andar á deriva do que propriamente intencional. Não posso dizer que não gostei, porque até é fixe, tem agressão e balanço cativante mas, pelo que descrevo acima, falta coesão, falta um fio condutor. É banda para ficar na lista e ir dando uma olhadela de quando em vez. Tem potencial. Para já, uma cassete basta.

06/01/2025

#CD

 

Título: XI

Artista: MERCIC

Media: CD

Ano: 2024

Género: Industrial


Entendo que, primariamente, a música é um meio de comunicação. As notas, as escalas, os andamentos, a forma como se organizam e sequenciam, tudo isto, produz sensações, transmite ideias, provoca estados de espírito, desperta emoções. A música cantada, possui um meio mais directo para fazer tudo isto: a lírica, os poemas. Se facilita por um lado, impõe uma relação de coerência com o instrumental, por outro.

Actualmente, o mercado encontra-se inundado por canções cuja letra se resume a uma série de palavras ou expressões tidas como cool, mas, não querem dizer rigorosamente nada. Por vezes, nem fazem sentido sequer. Outras vezes, elaboram conceitos abstractos pretensiosamente complexos, igualmente vazios de significado, meramente com o intuito de conferir alguma intelectualidade ao objecto artístico, supostamente. Se nos deslocarmos para o mainstream, as letras até podem fazer sentido, mas o sentido que fazem, é para débeis mentais ou decadentes imbecilizados.

Quando "apanho" algo a fazer canções fora desta realidade, canções que de facto querem dizer alguma coisa e coerentes entre a lírica e o instrumental, a minha atenção fica alerta. É o caso deste álbum. O título (XI/eleven/onze), indica ser o décimo primeiro álbum deste projecto (apenas alguns tiveram lançamento em suporte físico, como é o caso deste). Existe um legado volumoso, portanto. Praticam um Idustrial EBM, com guitarras distorcidas e, pontualmente, outros instrumentos á partida estranhos á estética (guitarra portuguesa, tuba), arriscando experimentalismo além do sound design e temas de construção não standard. A dinâmica do álbum estende-se desde o introspectivo/reflexivo, mais calmo, a agressão rápida e furiosa declarada. Uma viagem nada monótona.

Contrariam o velho ditado "Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem", provando que, longe dos grandes centros urbanos e polos de decisão, se fazem coisas, se faz cultura. Provavelmente, também por isso, a sua visibilidade não tem sido a maior. De qualquer modo, o sul da Europa não é propriamente adepto deste género de sonoridades.

O industrial é uma das minhas praias, por esse motivo (e por outros, irrelevantes para esta publicação) sou suspeito ao aconselhar este álbum, mas faço-o de qualquer modo. Talvez o facto de algumas letras aqui contidas falarem directamente a experiências pessoais também por mim vividas, me levem a considerar esta edição uma lufada de ar fresco. Vale a pena escutar.

05/01/2025

#Vinil


Título: Omega

Artista: Enrique Morente / Lagartija Nick

Media: 2xLP, Picture Disc, 12", 33rpm, sleeve jacket

Ano: 2024

Género: Flamenco / Rock / Post-Rock


Originalmente lançado em 1996, só me apercebi da existência deste disco anos depois. Os únicos exemplares à venda, circulavam no mercado de colecionismo, a preços proibitivos. Felizmente, decidiram fazer uma reedição em 2024, em picture disc, e aí já não me escapou.

Numa colaboração surpreendente, o cantor de Flamenco Enrique Morente e a banda de Rock Lagartija Nick, com mais uma série notável de músicos convidados, musicaram um conjunto de poemas de Frederico Garcia Lorca e Leonard Cohen, numa fusão inacreditavelmente bela de estilos. As repercussões do resultado brilhante, ainda estão por ser avaliadas e, rapidamente extravasaram o universo da música espanhola. Reconhecido internacionalmente pelo elevado nível qualitativo, arrisca-se a ser o primeiro disco de algo totalmente novo.

Tradicionalmente, na música, Portugal e Espanha estão de costas voltadas. Nem os projectos musicais portugueses penetram eficazmente o mercado espanhol, nem o muito e bom que se produz em Espanha chega aos ouvidos portugueses. Embora existam raras excepções que, confirmam a regra. Apenas alguns melómanos e/ou colecionadores, de ambos os lados, por procurarem activamente coisas novas e diferentes da papa pré digerida que o mainstream empurra pela goela abaixo do grande público, se vão apercebendo das valiosas pérolas. Este álbum é uma delas, e das grandes.

Mesmo sem o preciosismo (ou mania) do vinil, aconselho a comprar este disco urgentemente. Existe em CD e é razoavelmente fácil e barato de obter. Apenas garanto uma coisa: O vosso mundo vai mudar depois de o ouvir. Verdadeiramente fantástico.

04/01/2025

#Livro


Título: 189 escritos con una mano enferma

Autor: El Drogas

Ano: 2021

Idioma: Castelhano


El Drogas (Enrique Villarreal) é possuidor de um longo legado enquanto letrista de vários projectos musicais em que esteve envolvido ao longo do tempo. Talvez o mais conhecido (e relevante) tenha sido a banda Barricada. Caracterizado por um estilo "sem papas na língua", o seu primeiro livro, Tres Puntadas, de 2013, que vai na segunda edição, reúne textos inéditos e publicados na imprensa e internet.

Este, é exclusivamente de poesia original. Escrita iniciada no período pré pandemia e desenvolvimento feito no período de confinamento, apresenta um registo visceral e cru que reflecte estados de espirito maioritariamente conflituosos. Ora belos, ora rudes. Percebe-se que não seria difícil musicar um largo numero de poemas aqui contidos. El Drogas não tem dificuldade em se afirmar enquanto poeta, mas não parece totalmente disposto a abandonar a pele de letrista, de roqueiro. Tabus, pudores, e outras barreiras protectoras de sensibilidades menos maturas, são ausentes do seu discurso. Nos Barricada, não hesitava em atacar a igreja católica, o colonialismo, o fascismo, a injustiça, num país de forte raiz e tradição católica como é Espanha. Na poesia, igualmente não há grandes barreiras. Derivado ao contexto da época em que foi escrito, transparece por vezes a imagem de um tigre selvagem fechado numa jaula.

O introspectivo equilibra o rebelde, em igual medida, numa leitura nada monótona. Apesar de não ser intelectualmente elitista, é um livro para ler devagar. E apreciar.

#Cassete

 

Título: Zeit

Artista: Rammstein

Media: Cassete

Ano: 2022

Género: Industrial Metal


O muro de Berlin caiu em 1989, reunificando as duas alemanhas. Em 1995, Rammstein lançava o seu primeiro álbum. Levou seis anos para um grupo de músicos vindos do lado de lá da cortina de ferro, conseguirem dar o suficiente nas vistas e colocarem um disco no mercado. Vindos de um contexto onde a cultura e o acesso a ela eram supervisionados pelo estado, comunista, a sonoridade e lírica que praticaram desde o primeiro dia, é algo surpreendente, O facto de até à data terem apenas oito álbuns de originais e, com apenas esses oito álbuns, serem líderes de mercado tanto em vendas como em espetáculos ao vivo, também surpreende.

Não têm todos os oito o mesmo nível. Há melhores e piores, mas, nenhum é verdadeiramente mau. Goste-se ou não, facto é, a fórmula teve sucesso.

Provavelmente, Zeit em cassete, será mais item de colecionador que álbum para pôr a tocar. Provavelmente, muitos dos que compraram, nem sequer vão tirar o plástico que a embala. Eu tirei e, pus a tocar. Fiquei bastante satisfeito com a qualidade da reprodução. Atualmente, a fita das cassetes (gravadas e virgens) é exclusivamente Normal Position, óxido de ferro, portanto. Pelas regras e leis anti poluição, o fabrico de fita de dióxido de crómio, High Position, com maior qualidade de reprodução e durabilidade, é inviável. Daí, a minha satisfação. Em fita Normal, está bem bom. Sei que não vai durar eternamente, mas apesar disso é um exemplar que me apraz possuir.

Este álbum, não é nada que venha sacudir o panorama musical. Para quem conhece o backcatalog, este disco é de uma normalidade previsível e aborrecida. No entanto, não é mau. É mais do mesmo, com menos sal, sem especiarias ou temperos que possam ameaçar a saúde e o bem estar. Sofá, pantufas e um cházinho. Quem começar a conhecer por aqui, não vai ficar com os cabelos em pé. Rammstein para principiantes.

02/01/2025

#CD


Título: Mus-Pri

Artista: Empty V

Media: CD

Ano: 2018

Género: Industrial


Receio que, falar do que é este disco e esta banda, não lhes faça justiça. Assim, vou falar do que podem ser. Podem ser Industrial Metal, a configuração standard está lá, bateria baixo guitarra mais a electrónica. Podem ser EBM (Electronic Body Music), os synths, samplers e sound design, estão lá. Ao vivo, podem ser um concerto mas, também podem ser uma art instalation. Ambos são válidos.

Tanto o álbum como as actuações ao vivo estão construídos de uma forma bastante criativa e sólida. Há um conceito, há uma intenção. Visualmente tem impacto, musicalmente é competente e cativante. Desde 2018 que aguardo um segundo álbum para poder formar uma ideia mais afirmativa e clara acerca deste projecto. Um é casuística, dois é padrão. Infelizmente ainda não aconteceu.

Além da boa música, satisfaz-me enormemente ver algo nascer com tantas possibilidades em aberto. Gostava sinceramente de testemunhar a eventual evolução da banda, a exploração dos caminhos possíveis. O potencial (mal) contido neste inicio de carreira, é uma promessa que merece ser concretizada. Congratulo-os pela ousadia do experimentalismo. Quando tantos preferem fórmulas já batidas, bafientas, é acto de coragem criar o próprio caminho.

Acima de tudo, não são mais do mesmo. Considero-os players importantes no sentido de enriquecimento no leque de oferta nacional. Aguardo expectante por mais.

01/01/2025

#Vinil


Título: Absolute Elsewhere

Artista: Blood Incantation

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, gatefold

Ano: 2024

Género: Progressive Death Metal


Apontado por muitos como o melhor álbum de 2024. Nos cinquenta escolhidos pela Metal Hammer, ocupa a primeira posição. Gosto muito e subscrevo a classificação, pelo menos parcialmente. Interpreto o galardão mais como um reconhecimento de todo o trabalho desenvolvido pela banda até agora, do que, apenas este disco. Possuem quatro álbuns e três EP's no catálogo. Todos obedecem á mesma fórmula excepto um, mas todos são muito bons. Daí suspeitar que o valor qualitativo atribuído a este, resulta da soma dos anteriores. Não é que tivessem sido injustamente ignorados, cada um na sua altura foi bastante elogiado, mas se calhar, não o suficiente. Um bocadinho de redenção por parte dos críticos, talvez.

O álbum tem apenas dois temas, um de cada lado, ambos além da marca dos vinte minutos. Acerca do Death Metal ninguém tem dúvidas, acerca do progressivo... São mais ou menos óbvios os traços de Pink Floyd e Tangerine Dream dispersos pelos dois temas. Isto e a duração dos temas, é suficiente para conferir a etiqueta de progressivo. No entanto, a componente que mais me atrai nesta banda é a ousadia do experimentalismo. Pouco mencionada pelos críticos especializados.

O único álbum que não encaixa no molde intitula-se Timewave Zero, é completamente eletrónico e instrumental. Existe outro álbum com o mesmo nome da autoria de Grendel na estética do Industrial / Synth Wave / Dance Music. Nada a ver. Até fiquei espantado por um disco com estas características ter sido posto no mercado sob a designação Blood Incantation. É tão one off que, parecia mais adequado ser editado por um projecto paralelo com outro nome. Constituído em exclusivo por paisagens electrónicas ambientais, assemelha-se muito ao que Tangerine Dream fez na sua ultima fase, sem nada do progressivo (fase intermédia) ou da improvisação caótica (fase inicial). Ambientes contemplativos muito bem elaborados em temas muito longos. Ora, esta componente ressurge neste álbum e brilha com intensidade. Peca apenas pela fácil e imediata relação com... Tangerine Dream. Assim como outras passagens se associam imediatamente a Pink Floyd.

Pelos finais de '60, princípios de '70, existiu uma etiqueta para o que era genericamente música com estas características, entretanto caiu em desuso: Space Rock. Coisas muito trippy, muito inspiradas pelo consumo de drogas alucinógenas. Ao vivo, orientado para o improviso, para a experimentação.

Nada do que escrevi atrás pretende denunciar plágio ou falta de originalidade, não quero de modo algum retirar valor. É um bom álbum, que se coloca numa estética rara para a actualidade. Onde a janela de atenção do público não atinge os três minutos, torna-se obviamente música para apreciadores selecionados. A estranheza é mesmo essa: Muita gente considerou isto o melhor álbum do ano! Fantástico! Afinal nem tudo está perdido.

Aconselho vivamente.

#Livro

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