09/02/2025

#Livro

 

Título: A Miúda da Banda

Autor: Kim Gordon

Ano: 2016

Idioma: Português


Os Sonic Youth foram apenas um expediente criativo. A vida de Kim Gordon (baixista, membro fundador dos Sonic Youth) conta a história da sua vida, numa narrativa quase de romance que, se tornou um best seller do New York Times. Não foi propriamente a fama de best seller do NYT que me levou a ler este livro. A história de Kim passa-se num contexto onde a criatividade é fervilhante. Um ambiente onde a arte domina todo o cenário. Há momentos mundanos, passagens pessoais, etapas de amadurecimento, mas acima de tudo, é uma janela aberta para uma época e geografia seminais em várias expressões artísticas.

Dos Sonic Youth, interessou-me essencialmente a componente experimental. Nem sequer vi o projecto como exclusivamente uma banda Rock. Instalação performativa, talvez. Para além da relação com a música, a relação com outras formas de expressão artística, passagens da vida pessoal, episódios familiares, traduzem a  mulher que adoptou a criatividade como forma de estar na vida. Algumas feministas de hoje deviam ler este livro. Há quem fale de liberdade, e há quem a exerça. Kim fala com conhecimento de causa.

Uma leitura fascinante que ajuda a compor mais detalhadamente um local e uma altura no tempo sobre a qual se conjectura enormemente, se conta muita estória. Nasceram mitos. Só quem esteve lá, pode saber a verdade.

Gostei bastante. Provavelmente, repetirei a leitura daqui a algum tempo.


08/02/2025

#Cassete


Título: The Formation Of Damnation

Artista: Testament

Media: Cassete

Ano: 2022 (reissue 2008)

Género: Thrash Metal


Na cronologia do Metal, o período de finais de 90's e princípios de 00's foi a grande depressão. A MTV arruinou o percurso natural das coisas, empurrando o Glam para o Hair Metal, mata-o com o Grunge e repete a fórmula com o Nu Metal. No processo, arruinando as possibilidades do Thrash se tornar uma corrente sólida. Como o tempo infelizmente testemunha, Metallica foi a única banda a passar a barreira, e mesmo assim, só depois de levarem com o obrigatório remake. Muita banda de qualidade ficou a meio caminho, Testament foi uma delas. Atravessaram o deserto a debitar álbuns sempre de qualidade. Uns melhores outros piores mas, não há nenhum que se possa chamar mau.

O Formation Of Damnation é um excelente exemplo da qualidade deste projecto, destes músicos. Numa altura em que o Metal era desdenhado, o Hip Hop dominava a atenção do grande público, um disco destes corre o risco de ser ignorado, ser inconveniente até. Não podiam ter mais força em contraciclo. è um dos melhores álbuns da carreira. Intimida quem vier de outras sonoridades, enche as medidas de qualquer headbanger. Um disco incontornável na história do Thrash.

A reedição em cassete, atenta ao colecionismo, nada mais que isso. Embora tenham ocorrido repressings em vinil e picture disc, ter também um exemplar em cassete, é hipster. É um álbum clássico, merece uns miminhos.

#CD

 

Título: Ao Vivo Na Academia

Artista: Trinta e Um

Media: CD, digipak

Ano: 2017

Género: Punk / Hardcore


Os Trinta e Um existem desde 1995. Sofreram algumas mudanças de line-up mas mantiveram-se sempre no activo. Foram influenciadores de toda uma onda que ainda percorre Portugal. Enquanto uns afirmam a morte do Punk (e do Rock), pelo underground testemunha-se um movimento demasiado dinâmico para se poder chamar de "morto". Espero que continue.

A assim continuam os Trinta e Um, a dar concertos e, de vez em quando a lançar um disco novo ou, a reedição de outro mais antigo. O legado está a ser preservado e colocado ao alcance do público, acho muito bem. Não estive presente neste concerto mas, estive presente noutro, na Academia de Linda-a-Velha, talvez vinte e cinco anos atrás. Todo o evento, a música, as bandas, o público, o ambiente... Inesquecível. Comprei este álbum noutro concerto deles, bem mais recente. É fixe ver que há espaço para o Punk Hardcore, testemunhar a longevidade, validar que existem canções que ficam para sempre.

No Punk Harcore, não se faz um bom serviço se aconselharmos a escutar os discos. Devemos aconselhar a ir aos concertos.

No entanto, os discos cumprem a função de registo. E os Trinta e Um já fizeram trinta anos de história. Sabe bem possuir um pedaço dessa história na colecção.

#Vinil

 

Título: Pantheon Of The Nightside Gods

Artista: Belzebubs

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, gatefold

Ano: 2019

Género: Black Metal / Melodic Death Metal


Uma banda real que surge a personificar a banda desenhada e personagens com o mesmo nome. Como aconteceu com Metalocalypse e a banda Dethklok, uma série de animação cuja banda sonora é música original, a narrativa desvenda o atribulado percurso de uma banda de Death Metal, essa banda de Death Metal de animação acaba por se tornar realidade, com discos e concertos.

Belzebubs é uma banda desenhada onde a acção decorre á volta de uma família de Black Metallers ferrenhos que, também têm uma banda. Et voilá. Eis o álbum que tornou essa família de banda desenhada, numa banda real, com discos reais. Tratando-se de bonecos num contexto de comédia/humor, a linha entre palhaçada e sátira exige cautela.

No caso de Dethklok, a música já vinha salpicando os episódios, dava para balizar o que iria ser um álbum e uma banda a partir daí. Neste caso, a expectativa era um pouco maior. É uma banda desenhada, um meio exclusivamente visual, a adoptar um novo meio, o áudio. Saiu um álbum que se coloca num patamar muito acima da mera curiosidade, afirmando-se como uma release importante dentro da estética. Sim, é mesmo fixe. Tanto musicalmente como tecnicamente, fica entre os melhores, com facilidade. Sou apreciador de um som cru e gravação intencionalmente rudimentar, mas, som trabalhado e cuidado, eleva a fasquia numa série de aspectos. Este álbum está muito bom. Quem tiver o interesse em indagar on-line acerca de Belzebubs terá a oportunidade de mergulhar num ambiente bastante coerente com o álbum. Vale a pena escutar o disco. Seguir a BD também. Os bonecos tocam bem.

Um disco que retorna ao prato regularmente. Aconselho.


31/01/2025

#Livro

 

Título: I Am Ozzy

Autor: Ozzy Osbourne

Ano: 2010

Idioma: Inglês


Uma vida preenchida. Quando for, vai de barriga cheia. Esta é ideia que fica após ler esta biografia escrita na primeira pessoa. Filho da primeira geração pós segunda guerra mundial, a realidade que enfrentou não foi propriamente fácil ou agradável. Numa Inglaterra a reconstruir-se, as condições de vida da classe trabalhadora eram inclementes. Só já tarde na vida foi identificada a sua dislexia. Por isso, passou as primeiras décadas de vida sem saber ler ou escrever, intitulado de burro e incapaz na escola, condenado a empregos miseráveis e a um ambiente social degradante. O interesse pela música, onde identificou uma possibilidade de fuga à vida que se perfilava, levou-o a juntar-se a outros da mesma geração e formar os Black Sabbath. Então, este pobre analfabeto miserável, abriu a boca e começou a cantar. E toda a gente ficou de queixo caído.

É a sua história, a dos Black Sabbath e a de Ozzy Osbourne a solo. Onde Ozzy estivesse presente, coisas aconteciam. Algumas chocantes, outras hilariantes. Algumas brilhante, algumas trágicas. De miserável faminto a multimilionário, com tudo pelo meio. Os excessos, álcool, drogas, todas drogas, sexo, mais drogas, mais álcool, até á recuperação possível para quem abusou tanto de tudo.

Sem pudores, embaraços ou vergonhas, conta a sua história de vida o melhor que se consegue lembrar. A leitura é bastante cativante pelo seu tom humorístico e, até mesmo nos momentos mais negros Ozzy nunca perdeu o sentido de humor. Quem acompanhou o reality show na MTV e segue online os podcasts, faz uma ideia bastante aproximada do que é o turbilhão de insanidade contrastante com momentos de lucidez profunda surpreendentes. Ozzy é assim, uma viagem na montanha russa. Ou antes, uma viagem num Crazy Train.

O livro vale totalmente a pena. Ozzy é um dos grandes, o seu legado é extenso e carregado de pontos altos. Houve passagens do livro que tive a sensação de o ter á minha frente a contar um ou outro episódio pessoalmente. É este o nível de intimidade que a organização da narrativa consegue conquistar. Está muito bem escrito e é sem dúvida mais um ponto alto na sua carreira. Recomendo.

#Cassete

 

Título: Dying Of Everything

Artista: Obituary

Media: Cassete

Ano: 2023

Género: Death Metal


Habitualmente, os jovens que se sentem atraídos pelo Metal, aderem inicialmente às manifestações mais agressivas do género. Só à medida que os anos vão passando e a personalidade amadurecendo é que admitem interesse por coisas mais suaves, mais melódicas. O meu percurso foi diferente. O inicio do Death e Black Metal, não me cativou. Conheci e ouvi tudo, acompanhei a cronologia do surgimento dos subgéneros a tempo real, mas, as vertentes mais abrasivas repeliam-me. Desde cedo, considerei o som mais importante que a música e, o som dos primeiros álbuns de Thrash, Death, Black, era pura e simplesmente horrível. Como era algo com futuro incerto, as editoras não atiravam dinheiro aos projectos. Limitavam ao máximo as despesas até ver o que aquilo ia dar. Não acreditavam que existisse mercado para algo tão ruidoso. A somar a esta hesitação cautelosa, como era algo inteiramente novo, produtores e técnicos dos estúdios, não sabiam o que fazer e como fazer. Não sabiam como controlar e registar uma fúria sónica tão avassaladora. Só a partir de finais de 80's, princípios de 90's, já com as dúvidas e receios ultrapassados, com experiência adquirida entretanto, começaram a surgir discos destes subgéneros com um som decente. E aí, interessei-me.

Obituary logo desde o primeiro álbum (1989), apresentou uma sonoridade bastante bem conseguida. Não passou um período inicial tortuoso a debater-se com um som frágil, mais abrasivo que impactante. É esmagador desde o início. Souberam controlar o detune dos instrumentos, souberam captar de forma clara as frequências mais graves sem resultar numa massa viscosa e disforme. Os primeiros três álbuns são clássicos obrigatórios para qualquer headbanger que se preze.

Ao longo da carreira mantiveram-se fiéis à fórmula que criaram e, ainda hoje, não difere muito do que faziam há quarenta anos. É bom e é mau em simultâneo. Se por um lado, não desilude, por outro, resume-se a mais do mesmo. Este álbum, o mais recente, é um bom álbum. Mas quando decido escutar Obituary, prefiro pôr a tocar qualquer um dos três primeiros. Ou todos os três primeiros.

Confesso que escutei este disco um par de vezes, confirmei a qualidade, é de facto um bom disco, mas... acabei por o encostar. Há uma série de bandas que sigo religiosamente a carreira. Compro todos os álbuns, bons e menos bons. Mas escutar... Só escuto os espetacularmente bons. O resto, é colecção, porque sou fan e quero ter tudo. Embora não ouça, regularmente, tudo.

Provavelmente tem também a ver com a minha idade. Não é absolutamente necessário andar quarenta anos para trás de modo a obter a minha dose diária recomendada disto ou daquilo, posso perfeitamente obter essa dose com o que existe hoje no mercado. Mas... Se calhar isso obriga-me a enfrentar o reumático. Prefiro recordar o tempo em que não me doía o pescoço, os joelhos, as costas, tinha cabelo, e os dentes quase todos. Saudosismo, é o que é.

Bottom line; è um bom álbum. Mas prefiro os primeiros.

28/01/2025

#CD

 

Título: Heartless Oppressor

Artista: Primal Attack

Media: CD, digipak

Ano: 2017

Género: Thrash / Hardcore


Segundo álbum de mais uma banda portuguesa intermitente. A música é de uma competência irrepreensível e a aceitação foi bastante notável, criando um público fiel logo desde o início do projecto em 2012. Só que... Desde este segundo álbum, passaram oito anos sem mais nada acontecer. Perdoem-me mas, não são aparições esporádicas ao vivo, ainda assim raras, que colmatam o vazio. Recomeçar é sempre mais difícil que dar continuidade a algo que já tenha tomado balanço. Vencer a inércia inicial, onde reside o esforço maior, já estava feito. Era de aproveitar o momentum.

Claro que, os anos passam, a vida muda, surgem outras prioridades. Mas, infelizmente, esta é a história de inúmeras bandas portuguesas com pernas para andar e que cessam a actividade, ou, passam a fazer "aparições" muito especiais, muito exclusivas, de tempos a tempos. Para matar saudades.

Algumas destas histórias, não são bem assim como estou a contar. Por vezes (inúmeras vezes) surgem projectos musicais cheios de sumo, muito válidos, muito competentes, mas, na realidade, o seu propósito resume-se a um showcase. De alguém ou de alguma coisa. Quando cumprida a sua função, cada um segue a sua vida e a banda é descartada. A base de fans entretanto formada, fica desiludida, mas isso é pouco ou nada importante. Até porque, online, tudo continua vivinho e activo. Como se o virtual substituísse o real.

Não devia ser preciso montar um restaurante gourmet meramente para promover o fulano que faz os guardanapos. Mas é o que acontece, com frequência. Isso e músicos com múltiplas bandas de múltiplas sonoridades, quando uma está fora de moda, pega-se noutra que pratique um som mais em voga. Se o festival for de Black, tenho banda para lá ir, se for de Death, tenho banda para lá ir, se for de Stoner, tenho banda para lá ir, se for de Punk... you get the idea.

Provavelmente somos um mercado demasiado pequeno para que sonhos singulares sejam possíveis de realizar, e manter. Deste sonho especifico, os Primal Attack, tenho pena. Gostava de o ver concretizado. Não só porque gosto, mas também porque estava muito bem feitinho. Era produto acabado e de qualidade. Enquanto há vida há esperança.


PS - Não estou a acusar esta banda especifica de ser um showcase ou expediente para "caçar" slots em festivais. Falo genericamente do panorama português. Salpicado por casos que encaixam perfeitamente na descrição.

#Vinil


Título: Rodrigo Y Gabriela

Artista: Rodrigo Y Gabriela

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, gatefold

Ano: 2006

Género: Rock / Latin / Acoustic / Flamenco


Começaram por ser recusados pelo conservatório da cidade do México por falta de talento, formaram uma banda de Heavy Metal, acharam que o formato era demasiado limitado e mudaram para um duo acústico. A tocar uma mistura de Flamenco e Rock, fortemente influenciada pela música latino cubana, foram actuando pelas ruas do mundo inteiro até que um produtor esbarrou neles e, propôs gravar um disco. Recusaram. O produtor insistiu, continuaram a recusar. Então propôs oferecer-lhes tempo de estúdio para fazerem o que bem entendessem, sem qualquer intervenção da sua parte. Saiu o álbum "Re Foc" em 2002. A seguir, uma carreira internacional brilhante, 1,2 milhões de discos vendidos e um Grammy.

Quando estavam em Inglaterra a gravar o álbum "9 Dead Alive" em 2016, resolveram quebrar o tédio do trabalho em estúdio, alugaram um autocarro e percorreram a Europa a dar concertos mais ou menos improvisados. Chegaram a Portugal e tocaram na Aula Magna, concerto que tive o prazer de assistir. Revelaram a escola de artistas de rua onde se formaram, convidando o público, todo o público, a subir para o palco e sentarem-se á volta deles, porque isto de os artistas de um lado e o público do outro, é desconfortável, cria distância, no entender deles, absurda. Quando terminaram o set, bastante curto, pediram desculpa explicando que esta série de concertos não tinha sido planeada, não tinham previsto mais nada para tocar. Por isso, o público podia pedir o que quisesse. Além de mais uns quantos originais, Led Zeppelin, Metallica, Megadeth, são alguns dos temas que me recordo. Foi uma festa intimista, fantástica.

Um homem, uma mulher, duas guitarras acústicas. Rigorosamente mais nada. E enchem as medidas, sem grande esforço. Lindo.

Toda a discografia é digna de ser escutada. Sete álbuns de originais, três álbuns ao vivo e três EP's. Grabiela Quintero, usa a guitarra acústica também como instrumento de percussão, de forma soberba, Rodrigo Sanchez, em discos mais recentes, adicionou a guitarra eléctrica ao leque. Eu comecei neste álbum, quem for mais obsessivo compulsivo, comece no primeiro. Garantidamente não vai parar enquanto não os ouvir todos.

#Livro

  Título:  A Miúda da Banda Autor:  Kim Gordon Ano: 2016 Idioma: Português Os Sonic Youth foram apenas um expediente criativo. A vida de Kim...