31/12/2024

#Livro


Título: Gary Moore

Autor: Harry Shapiro

Ano: 2022

Idioma: Inglês


O autor, quando fez o trabalho de rastreio para decidir qual seria a próxima biografia que iria propor-se a escrever, ouviu uma gravação pirata (bootleg) de um concerto dos Thin Lizzy nos USA, quando fizeram as primeiras partes da tour americana dos Queen. Mesmo sendo alguém dentro do meio, ter privado com alguns dos músicos e bandas mais significativos da história, ter escutado com frequência grandes talentos, quando ouviu aquela gravação onde Gary Moore actuava, fez-se um nó na garganta e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Nunca, nenhum músico tinha tido tal impacto emocional nele. Ficou assim decidido que a biografia de Gary Moore seria a próxima.

Gary Moore faleceu em 2011, aos 58 anos de idade. O motivo inicial foi atribuído ao abuso de álcool. Na autopsia descobriu-se que Gary sofria de uma condição cardíaca nunca diagnosticada, a bebida na vida de Gary, apesar de não ser nada de mais pelos standards de um irlandês, junto com a patologia cardíaca, ditou a morte prematura. Apesar de não ser alcoólico, era habitual ser o ultimo a permanecer de pé no final da festa. Shapiro pediu á ex-esposa de Gary Moore para tentar sintetizar numa frase quem tinha sido aquele ser humano, ela respondeu: "Quando Gary abraçava alguém, essa pessoa permanecia abraçada". Um verdadeiro irlandês.

Era canhoto mas, por ignorância e falta de meios, aprendeu a tocar guitarra á direita. Justifica-se assim a assertividade característica do seu estilo. Dono de ouvido absoluto, perfeccionista na música, obstinado pela guitarra, nada fazia perder o foco, apesar de se movimentar num meio, e época, onde os excessos eram o rockstar way o life. Dito pelo próprio numa entrevista, "Se no fim de um concerto, ao chegar ao quarto de hotel, estivesse a Raquel Welch nua na cama e uma guitarra ao lado, pegava na guitarra". Já com a carreira lançada e reconhecimento internacional, um antigo colega de escola foi ao backstage cumprimentá-lo no fim de um concerto. Perguntou-lhe: "E agora? O que fazes para acalmar no fim de algo tão intenso?", Gary respondeu: "Toco guitarra."

O desprezo de Gary pela abordagem shredder á guitarra (tocar o maior numero de notas possível num espaço muito curto de tempo) era bem conhecido. Quando tocava nos USA, era frequente Eddie Van Halen ir assistir a algumas actuações. Uma dessas vezes, Gary, a meio de um solo, introduziu um improviso clonado do estilo de Van Halen, mas sem tremolo e sem levar a mão direita ao braço da guitarra, olhou directamente para Eddie Van Halen no lado do palco, e sorriu.

O livro é um trabalho admirável de pesquisa, em que, além das entrevistas aos meios de comunicação social e publicações especializadas possíveis de reunir, felizmente, tanto família como músicos e profissionais do meio, colaboraram de coração aberto, contando episódios, pintando um quadro bastante completo do músico e do ser humano. O autor expressa no livro o seu espanto em como tantas e tão importantes figuras da música atribuem a Gary Moore uma influência significativa nos seus próprios estilos e abordagens á guitarra, á música. Excelente leitura, recomendo.

30/12/2024

#Cassete


Título: The Number Of the Beast (remastered)

Artista: Iron Maiden

Media: Cassete

Ano: 2022 (1982 reissue)

Género: Heavy Metal


Comprar um álbum de 1982 em 2022, em cassete, ilustra perfeitamente o propósito deste blog. Aprofundando a contextualização, possuo (em vinil) o original de 1982, a reedição comemorativa dos quarenta anos (sem ser remasterizada) e uma versão limitada Picture Disc. Quatro exemplares do mesmo álbum, três em vinil, um em cassete. E quando me apetece ouvir, qual ponho a tocar? Exactamente. O original de 1982, já muito estafado. A relação afectiva que desenvolvi com o objecto é inultrapassável pelas versões mais recentes, em perfeitas condições de tocabilidade. Este laço é impossível de acontecer com uma playlist do Spotify ou ficheiros mp3 gravados numa pendrive. É isto que se perde. A relação com o objecto artístico. Consequentemente com o artista e, com a marca. Por algum motivo, tudo o que é gente no mundo virtual, tem como prioridade o engagement com o consumidor. Ou seja, a relação, o laço. O suporte físico faz isso por si só. Despertam para a necessidade de fidelização do consumidor, num universo onde a regra é o descartável. Boa sorte com isso.

Saindo um pouco fora do âmbito deste blog: A modernidade dos tempos glorifica o desligar. O anular das relações. Empáticas, afectivas, bidirecionais. O paradigma do glory hole. Meter a pila num buraco na parede e alguém anónimo do outro lado trata do assunto. Não quero saber quem, não quero ver a cara, não quero conhecer, não quero interagir. Apenas quero o assunto tratado.

Quando os jovens de hoje forem questionados pelos seus netos acerca da música e dos artistas que impactaram a sua juventude, duvido que o imaginário dessas crianças consiga ser estimulado por menções a playlists do Spotify. Ou um avô a tentar trautear uma mix do David Guetta.

Foram estes os motivos que me levaram a criar o blog. Não existe patrocínio de editoras nem favores subservientes, todos os objectos pertencem ao meu espólio pessoal. No limite, o que pode ser questionável, é a minha capacidade de curadoria. Pode ter a mesma importância que publicar a fotografia do pequeno almoço no Facebook mas, tem outro significado.

Ah! O The Number Of The Beast dos Iron Maiden, em cassete, remasterizado: É fixe.


29/12/2024

#CD


Título: Cruz Credo

Artista: La Chanson Noire

Media: CD

Ano: 2020

Género: Cabaret Music / Post Punk / Goth Rock


Piano e voz conjugam-se numa atmosfera de ar viciado, saturado de fumo, odor a álcool e a suor. A língua afiada dispara criticas mordazes, expõe vícios privados e levanta véus de tabu, por cima de melodias encantadoras. Com a autenticidade de uma taberna, desfilam perante nós travestis envoltos em plumas e lantejoulas, desafiando pudores e inseguranças que não sabíamos que tínhamos. A decadência urbana, humana, é quase palpável.

Por vezes fico surpreendido com o nível de qualidade (e originalidade) de alguns projectos artísticos, só e apenas, por terem aparecido em Portugal. Este é um desses casos. Lamentavelmente a excelência acontece e, o publico que usufrui dela, é muito limitado em número.

Tive a oportunidade de ver ao vivo e, nesse momento, decidi adquirir tudo o que houvesse em disco. Lamentavelmente (mais uma vez), existe pouca coisa. Dois álbuns e uma coletânea é o que há. E, aparentemente, não vai haver mais. O projecto extinguiu-se.

Musicalmente, é algo que encaixava bem entre uns Diary of Dreams e uns Deine Lakaien num concerto qualquer. Agora, que vim parar às referências germânicas, ocorreu-me que, os Rammstein nunca teriam atingido o patamar de popularidade que atingiram se cantassem numa língua que toda a gente percebesse. Rapidamente teriam à perna um exército de puritanos com forquilha e tocha em punho. Este disco de La Chanson Noire é perfeito para oferecer a um amigo puritano. E ficar a observar a combustão espontânea subsequente.


28/12/2024

#Vinil

 

Título: Coma

Artista: Gaerea

Media: Vinil green/purple marble, 12", 33rpm, sleeve jacket (300 cópias)

Ano: 2024

Género: Black Metal

O percurso delineado pela evolução patente nos álbuns anteriores denunciava uma ambição de conquistar mercados mais abrangentes que o nicho do Black Metal apenas. Este disco é de facto uma obra prima, capaz de agradar a consumidores muito para além do Black Metal. Mescla tonalidades Atmosféricas, com Post-qualquer-coisa, com... Black Metal. Num equilíbrio ponderado e mestria talentosa.

Agressão, desolação, reflexão e emoção, está lá tudo. Todos os elementos entrelaçados com uma simplicidade admirável, produzem um resultado ao qual é impossível ficar indiferente. Um dos melhores álbuns do ano, dito com isenção. Não é por ser português que elogio. É bom a qualquer nível, escala, geografia. Compete com os instituídos há longa data, taco a taco. A produção, captação/mistura/masterização/grafismo, são de grande nível, o produto em si é completo, perfeito. Mas que grande álbum!

O espetáculo ao vivo é excelente, tanto musical como visualmente, a agenda de actuações cresce, os slots nos festivais vão subindo de linha. Tem tudo para correr bem. E está a correr bem. Mas...

Na carreira de qualquer banda, em qualquer estética, não existe uma sequência de lançamentos, crescente em qualidade, eternamente. O paradigma do novo melhor que o anterior, não é para sempre. Essa é a minha questão. Depois de Coma, o que virá? Este álbum coloca a fasquia tão lá em cima que, mesmo fazendo igual a seguir, mesmo repetindo a fórmula, um Coma 2, vai parecer magro. Fico com a sensação que jogaram demasiados trunfos numa cartada só. O futuro o dirá.

Entretanto... GAEREA!!!

27/12/2024

#Livro

 

Título: Cowboy Song

Autor: Graeme Thomson

Ano: 2016

Idioma: Inglês


Phil Lynott faleceu prematuramente aos 36 anos, vítima das consequências dos excessos. Por essa altura, tinha feito doze álbuns de originais com a sua banda, os Thin Lizzy. Dois álbuns a solo e, várias colaborações em discos de outros músicos, destacando-se Gary Moore, amigo e parceiro criativo de longa data. Embora não se tenha plenamente afirmado como poeta, editou livros que reunem as letras das suas canções e alguns inéditos.

Escolher uma biografia para ler, por vezes é tarefa difícil. Autobiografia escrita pelo próprio, autobiografia escrita por outrem, biografia autorizada, biografia oficial, biografia não oficial, são algumas das opções que tipicamente se apresentam. Lynott nunca escreveu uma autobiografia. Esta, foi escrita postumamente, sendo a sua leitura bastante fluída e cativante. Quase como de um romance se tratasse. Um trabalho de pesquisa minucioso, recupera imensas entrevistas em meios de comunicação social, entrevistas a familiares, amigos, artistas, diversos profissionais que privaram com ele, produz um retrato razoavelmente credível da vida pessoal e artística (indissociáveis) de Lynott.

Derivado à origem irlandesa (cuja única ligação de sangue é por via materna), os conflitos e a violência, posições políticas ou ideológicas, estão raramente presentes no seu legado, assim como nesta biografia. O contexto social, económico e cultural, sim. Curiosamente, nunca foi vítima de racismo. Na época, existiam preocupações maiores, a cor da pele não era assunto. Muitas das personagens retratadas nos seus poemas/canções foram inspirados em figuras da vida real.

Um rastreio não exaustivo recente, feito pelas editoras, aponta para aproximadamente quinhentas outras canções (ou proto-canções) existentes em arquivo, sobras de álbuns e sessões de estúdio ad-hoc que, nunca viram a luz do dia. Homenageado pela cidade de Dublin, uma estátua sua foi erguida, reconhecendo o  papel pioneiro na divulgação da cultura além fronteiras, desbravando caminho e criando oportunidades para os músicos e bandas irlandesas no palco internacional.

Mesmo se não fosse fan, teria adorado ler. Uma fatia importante da história da música.

26/12/2024

#Cassete

 

Título: As in Gardens, So in Tombs

Artista: ...And Oceans

Media: Cassete

Ano: 2023

Género: Symphonic Black Metal


Banda finlandesa que já fez uma coisa, depois fez outra, depois parou, depois arrancou, depois retomou. Com tanta intermitência e mudança de rumo, não haveria certezas do que sairia daqui, desta vez. Saiu um dos melhores álbuns de 2023, dependendo um bocado de até onde quisermos estender a lista. Música muito rápida, melodias muito agradáveis, canções bem elaboradas.

Um bom exemplo de como etiquetar e colocar na gaveta correspondente, pode levar a interpretações erradas. É um álbum de Black Metal e castiga o ouvinte como tal. Os arranjos sinfónicos nunca tomam papel de protagonista e servem o propósito de elevar as melodias. Estão lá, mas são secundários. Ou seja, "tecnicamente" trata-se de Black Metal Sinfónico. Na prática, é Black Metal com melodias alimentadas as esteroides.

A aspereza característica do género domina o álbum que, contas feitas, certamente agrada aos adeptos da estética. As melodias mais musculadas, não são suficientes para dourar a pílula a ouvidos mais sensíveis. Claro que os puristas se irão manifestar do alto da sua autoridade. Idiotas que desperdiçam o prazer de ouvir um grande disco.

Altera-se um pequeno detalhe ao molde e, BANG! Ou surge um novo sub género, ou está banido da família, traidor herege. Idiótico. Mediante os gostos e preferências individuais, só existem dois géneros de música; A boa e a má. Esta é boa. Nuff said.

25/12/2024

#CD

 

Título: The Encyclopeadia of Black Sleep

Artista: Eden Synthetic Corps

Media: CD

Ano: 2022

Género: Industrial


Sétimo álbum de uma banda nacional cuja estética onde se posiciona, não é nem de perto nem de longe, favorita no mercado nacional. O sul da Europa não liga muito a estas sonoridades. Assim sendo, não se desperdiçam energias a remar contra a maré, leva-se o produto para junto do consumidor, mais a norte. Não existem muitas bandas nacionais que, ao dar um concerto em solo nacional, venha público directamente de Moscovo para os ver. Eu testemunhei o facto.

Com sete álbuns na bagagem a sonoridade própria está sobejamente solidificada. A composição bem exercitada, produz temas soberbos e álbuns coesos e coerentes. Numa estética hiper explorada e hiper povoada, embora fora do alcance dos holofotes do mainstream, conseguiram erguer estandarte. Fora da sua geografia de origem. Feito incrível.

Neste disco, identificam-se imediatamente elementos desde o Synth Pop ao Metal Industrial que, torna simultaneamente o mais acessível e o mais pesado do catálogo. Cantado em inglês, com um único tema em português, o álbum no geral, aproxima-se perigosamente daquilo que os alemães Oomph! fazem há décadas, o que não é necessariamente mau. A gravação/mistura/masterização, goza de um headroom surpreendente para a estética (e standards actuais), embora os compressores se mantenham no redline. Mas isto sou eu. Não seria expectável um álbum de Industrial exibir o espaço desafogado do Jazz. A densidade sonora já foi mais espessa em discos anteriores, mais electrónicos, com menos guitarras. Neste, sobressai a produção cuidada, com atenção ao detalhe em todas as fases do processo, resultando num excelente álbum também no som.

Os ESC não mudaram a fórmula, apenas refinaram a receita. Mantenho-me fiel. Sendo o Industrial uma das minhas praias, não posso fazer outra coisa senão aconselhar a escuta.

24/12/2024

#Vinil

 

Título: Lisboa Depois de Morta

Artista: Thragedium

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, sleeve jacket

Ano: 2023

Género: Neo-Folk / Doom Metal


A cultura que muta adapta e evolui é uma cultura viva. Contra todas as adversidades, predicados de um país pouco dado à cultura e mais dado a futebóis, é de celebrar quando algo surge (neste caso, ressurge, após hiato de duas décadas), a cozinhar ingredientes tradicionais com temperos mais contemporâneos. A excelência das composições, ora circunspectamente demoníacas, ora melancolicamente depressivas, trazem para o século XXI a fatalidade, tão lusitana, vestida numa mistura Doom e Folk.

As melodias belas, os poemas sentidos, os andamentos hipnóticos, os instrumentos tradicionais, o Metal, tudo se conjuga e entrecruza numa manta perfeita, escura e soturna. Mais desolador que claustrofóbico, apenas peca pela captação/mistura, embora perfeita para o étnico e tribal, revela-se pouco viril para o Metal. Talvez bastasse um delegar de responsabilidades para o evitar. Tirando este detalhe, tudo o resto está perfeito.

Um álbum que dá vontade de repetir a audição. Daqueles que, quando chega ao fim, lamentamos que seja tão curto. Mais um exemplo de qualidade elevada, aqui tão perto. Merece reconhecimento além fronteiras, desejo que tal aconteça. Seja um assinalar do regresso da banda à actividade regular, não tenhamos de esperar outros vinte anos por mais.

23/12/2024

#Livro


Título: Heavy Metal In Baghdad

Autor: Andy Capper / Gabi Sifre

Ano: 2009

Idioma: Inglês


Aquando da invasão Americana do Iraque, um jornalista americano que fazia a cobertura da guerra em Baghdad, ouviu um jovem iraquiano a trabalhar como tradutor, mencionar casualmente que tinha uma banda de Heavy Metal. Ficou curioso e, dessa curiosidade inicial, acabou por nascer um filme documentário sobre a banda Acrassicauda. O filme documentário causou impacto internacional, ganhou prémios, ficou conhecido em todo o mundo. Resultado disso, os elementos dos Acrassicauda ficaram com a cabeça a prémio no Iraque, pelos rebeldes e fundamentalistas religiosos. Para sobreviver, deixaram tudo para trás e fugiram de forma precária para a Síria. Os jornalistas e produtores do filme sentiram-se responsáveis por os ter colocado naquela situação, decidindo ajudar de qualquer forma que estivesse ao alcance. Planeou-se uma fuga mais organizada para a Turquia onde obtiveram o estatuto de refugiados. Algum tempo e várias peripécias depois, finalmente conseguiram entrada nos Estados Unidos de forma legal, reunindo novamente a banda.

Acima de tudo, é uma história de amizade (lutaram para ficar juntos, embora nem sempre fosse possível), é uma história de resiliência e amor á música (na Síria, mesmo em condições precárias conseguiram reunir-se e dar um concerto), é uma narrativa contada na primeira pessoa pelos elementos envolvidos.

O livro (feito posteriormente ao filme, aproximadamente um epílogo do mesmo) divide-se em duas partes. A primeira, constituída por transcrições de entrevistas e conversas informais gravadas. A segunda, transcrição completa do filme documentário. Uma vez que a língua inglesa foi aprendida exclusivamente por via da música (e outros meios de entretenimento), são patentes algumas limitações no léxico/fluência.

Além da história contada, colateralmente, é possível construir uma imagem da realidade socio económica e cultural do Iraque, antes durante e depois, da invasão americana. Não são explorados os horrores da guerra com finalidades dramáticas ou comerciais, embora alguns detalhes pertinentes salpiquem as declarações transcritas. Pequenos detalhes, como por exemplo a distribuição indiscriminada de Valium á população iraquiana pelas forças americanas (um povo calmo, não se revolta), ilustram que, em guerra, nem todas as vitimas são contabilizadas.

Livro por vezes, quase sempre, impressionante. Excelente leitura.

22/12/2024

#Cassete


Título: Srength

Artista: Unto Others

Media: Cassete

Ano: 2021

Género: Gothic Metal


Tenho sempre algumas reservas em relação ao Gótico americano. Primeiro, porque a referência automática é Type O Negative e, qualquer coisa que se aproxime, é clone, descartável portanto. Segundo, porque as referências europeias são tantas e, com tanta legítima propriedade que, é difícil levar a sério tentativas de usar o mesmo molde (com seriedade) em geografias menos sombrias, mais ensolaradas.

Sobre este projecto, alguém escreveu: "...se os The Cure fizessem um álbum de Metal, seria algo neste género." Tenho tendencia em concordar. Circunspecto e sombrio mas enérgico e afirmativo. Não se fica com vontade de cortar os pulsos, enfrenta-se a negritude depressiva de cabeça erguida. Contém uma versão de um tema de Pat Benatar, razoavelmente bem conseguida. Por vezes, laivos de standards fazem soar alarmes mas, no computo geral o álbum tem valor para se erguer por si.

Tratando-se de um inicio de carreira, desculpa-se algumas deambulações fora dos trilhos. Futuros trabalhos encarregar-se-ão de cristalizar uma sonoridade própria definitiva. Ou não. Entretanto, aceito as expressões mais animadas e efusivas, contrastantes com as regras da estética onde se posicionam.

Musicalmente não produz grandes distúrbios, é competente sem ser brilhante. O suficiente para ficar no radar, motivando o acompanhar do progresso. Não repele quem seja estranho ao género, nem se corre risco de ficar convertido. Vale a pena ouvir, não obriga a ter antidepressivos á mão.

É o segundo registo gravado pela banda e já exibe um investimento claro na captação/mistura/masterização. O resultado é um som excelente, também ele indiciador que alguém está a apostar neste cavalo. Repito: Vale a pena ficar a conhecer.

21/12/2024

#CD

 

Título: Terra

Artista: Terra

Media: CD

Ano: 2018

Género: Progressive / Alternative / Tribal


Quando aparece algo etiquetado como Progressivo, automaticamente pensamos em canções com dez minutos de duração, no mínimo. Solos intermináveis, polirritmias impossíveis de acompanhar, vozes a abranger quatro oitavas, mas exclusivamente a fazer uso da escala mais alta. Pois... Não. Não é disso que se trata. Aqui o progressivo deriva de uma junção perfeita de vários elementos distintos onde provavelmente o fio condutor mais facilmente identificável é o Metal, embora não o seja de forma óbvia, ou imediata.

Rock, ritmos tribais, percussões, melodias étnicas, algum Groove Metal e, uma voz de timbre grave, soberba a trabalhar desde o fundo da escala sem falsetes agudos longos, apenas o necessário. A musicalidade é de grande nível e os músicos colocam a prioridade no todo em detrimento do individual. Não se trata de agilidade a uma velocidade vertiginosa, não se trata de exibicionismo de talentos, não se trata de circo. É boa música e, contém uma característica de valor: é bastante original. A mistura de estilos e influências está muito bem conseguida, produzindo algo de novo. Óptimo.

Outro aspecto original, é a embalagem. Duas pequenas tábuas de madeira que se unem por imanes nos quatro cantos. Singular. Apelativo.

Tomei conhecimento desta banda ao vê-los ao vivo. Foi muito bom. Por vezes, algo que resulta muito bem ao vivo, não resulta tanto em disco (e vice versa), não é o caso. Ficou na lista para repetir caso a oportunidade surja. Entretanto, o disco revelou-se um prazer que se repete com regularidade.

São italianos e o CD é edição de autor. A captação, mistura, masterização, é bastante competente, embora se note que não foram gastos milhões no processo. O resultado final vale totalmente a pena.

20/12/2024

#Vinil


Título: Exotic Quixotic

Artista: Lusitanian Ghosts

Media: Vinil preto, 12", 33rpm, sleeve jacket

Ano: 2022

Género: Indie Rock


Segundo álbum deste colectivo (têm três até á data), cujo género definido pelos próprios é, Cordophone Rock n' Roll. Recuperam instrumentos de cordas tradicionais portugueses integrando-os numa estética Indie Rock. Instrumentos esses, praticamente extintos, daí o nome Lusitanian Ghosts.

Provavelmente pelo trabalho de ressuscitação de instrumentos tradicionais portugueses, algures pelo caminho o estado português envolveu-se no projecto. Por uma vez, sou obrigado a elogiar a promiscuidade entre o estado e as artes. A música em si é bastante agradável, competente e, além disso, está patente uma preocupação com a experiência auditiva. Este álbum, especificamente, foi gravado analogicamente, em fita. Outro indicador desta consciência: O disco mais recente, posterior a este, tem edição em versão mono e em versão stereo (em vinil). Musicalmente, o compromisso entre as sonoridades étnicas e o invólucro Rock, está muito bem conseguido. Cantado em inglês, com apontamentos pontuais na língua de Camões, aludindo despercebidamente ao folclore nacional. Mas é inequivocamente um disco de Indie Rock, muito bem feito, a todos os níveis.

O preço dos discos está abaixo da média praticada no mercado (obrigado república portuguesa e direcção geral das artes). Portanto, estão reunidas as condições para que toda a gente tenha em casa um ou mais discos dos Lusitanian Ghosts. Música (muito) boa, tocada por músicos (muito) bons, com qualidade de som (muito) boa, em suporte físico de preço acessível, não falta aqui nada.

Então, porque é que os Lusitanian Ghosts não andam nas bocas do mundo? Na berra? Mistério. Arrisco aqui o pescoço no cepo porque, não vejo televisão nem ouço rádio, daí ignorar se tem existido o airplay que acho justo para algo deste nível. Pode ser que sim, mas duvido.

Considero este disco o melhor dos três, sem desdém para os outros dois, nenhum deles é mau, apenas gosto mais deste. Aconselho vivamente.

19/12/2024

#Livro


Título: The Creative Act: A Way of Being

Autor: Rick Rubin

Ano: 2023

Idioma: Inglês


O livro de um dos mais conhecidos produtores musicais, de grande sucesso. Não contém truques, know how privilegiado, conselhos técnicos ou conteúdo biográfico. Trata-se de uma abordagem do género "guru" ao processo criativo. Não há nada neste livro que, alguém com alguma maturidade e sensibilidade cognitiva, alguém que se conheça a si mesmo, não saiba já.

Para algumas pessoas, ver a evidência já conhecida impressa, ajuda a cristalizar a necessidade de mudança de atitude, eventualmente serve de gatilho para agir e mudar. Concretizar um virar de página que nunca tinha sido feito, por preguiça ou teimosia. Para esse género de pessoas, este livro talvez ajude alguma coisa.

Achei-o chato, repetitivo e superficial, mesmo pela perspectiva de "guru". Uns pózinhos de visão new age misturados com reflexões meio hippie, algo anacrónicas. Espiritualidade barata, expectável de encontrar nos programas da manhã na TV. Mas nunca vindo de uma lenda. Desilusão.

Embora desinteressante, pela paginação espaçosa e corpo de letra generoso, as trezentas páginas passam num ápice. Sem deixar sumo ou vontade de repetir.

#Livro

  Título:  A Miúda da Banda Autor:  Kim Gordon Ano: 2016 Idioma: Português Os Sonic Youth foram apenas um expediente criativo. A vida de Kim...